quarta-feira, 21 de março de 2012

Que gosto isso tem?!


Já disse isso algumas vezes e cada vez tenho mais certeza de que a grande experiência cultural se dá na oportunidade de experimentarmos coisas diferentes do que conhecemos. Não estou falando de grandes travessuras juvenis, de suas pretensas rebeldias e irresponsabilidades. Falo de pequenas experiências ligadas aos costumes e muitas vezes à culinária. Aliás, com a globalização, poucas coisas são realmente novas e estamos lá, nos refastelando com comida árabe em qualquer esquina; ou um povo brabo danado como o "siarence", se emperequetando todo pra comer comida japonesa no Soho porque é chique. Nada contra, muito pelo contrário. Mas o fato é que num caldeirão cultural muito grande como o que eu vivo, há sempre oportunidade para aprendermos coisas novas, até mesmo com ingredientes que esse tal cosmopolitanismo moderno já nos apresentou.
Semana passada, não bastasse ter minha primeira aula particular de sauna, com os inventores do troço, continuei minhas viagens gastronômicas. Calma, antes de começarem os comentários jocosos, há uma toalha que concede certa proteção ao indivíduo. :-) Interessante saber que cada sauna, desde os antigos tempos, é governada por certa entidade, ligada à mitologia nórdica etc. O troço é mais ou menos seco e a temperatura é regulada jogando água nas pedras da caldeira, o que aumenta a sensação relativa de calor pela umidade.
Bem, o fato é que depois tivemos sopa para jantar. Na verdade, duas sopas. Na primeira, notei de cara o quiabo, ilustre convidado, prato predileto de meu amigo Cid. Alguns pimentões que me deixaram concerned, pois tenho aprendido que "novo" e "apimentado" são coisas que muitas vezes fazem sentido juntas por aqui. Por sorte não era o caso, eram inofensivos pimentões. Ah, e não adianta perguntar, porque além da sensação relativa de "apimentado" ser muito diferente de um país para outro, vocês não imaginavam que eu soubesse como se falava quiabo em inglês, não é? Lógico que não. O que me diriam de pimenta isso, pimenta aquilo?!?! Aliás, ainda não sei nem bem diferenciar os conceitos de "spyce" e "hot".
Mas o melhor da festa nesse dia realmente não foi a pimenta. Simplesmente se usou tamarindo para temperar a sopa! Não deixou de ser salgada, mas ganhou um componente marcadamente azedo. Se era bom?! O pior que era. Estranho num primeiro momento, mas bem interessante. O meu amigo Odilo que me perdoe, mas harmonizou muito bem com o bom e velho Casillero Cabernet Reserva que nos acompanhava no momento.
O prato principal era uma sopa de carne comum, com bastante vegetais, ervilhas, milho, alface. Comum, mas muito boa. Meio como sobremesa, também tivemos suco. Aliás, já era de se esperar, as frutas aqui são muito boas. Mas nunca tinha experimentado essa mistura específica. Simplesmente era suco de abacaxi com gengibre! Nunca morri de amores por abacaxi, mas os daqui são extremamente doces e suculentos, em nada se aproximam da citricidade dos daí. Com o toque do gengibre ficou simplesmente espetacular! E me disseram que as frutas no interior são ainda melhores... Por isso, a moral da história talvez seja justamente essa: mesmo que você ache que não gosta de alguma coisa por aqui, prove! Os sabores podem ser bem diferentes. Afinal de contas, estamos na África e mal-gosto e preconceito podem simplesmente residir do outro lado do Atlântico... Por que não?? ;-)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Gosto Apurado


Definitivamente, esta missão está me deixando com o gosto apurado. A cidade está se reconstruindo e há sim alguns mercados, como uma cidade do interior brasileiro. Algumas vendas e um supermercado maior. Nos balcões uma miscelânea: achocolatado canadense, coca-cola argelina, leite inglês, água Libanesa. Aliás, só uma coisa não varia, os libaneses são os donos de todos esses entrepostos.
Estamos num bom condomínio, só que a vários quilômetros do centro. Sem carro não dá. E não temos um. Aliás, todos os carros são de todos, mas como nosso posto definitivo não será aqui, não conseguimos entrar em nenhum grupo que divida irmamente qualquer um deles. Parecemos adolescentes, ao redor do povo da casa, a procura de uma carona pra qualquer lugar ou mesmo pra ver se sobra um carro pra nós. Resultado, no máximo conseguimos uma carona, sem direito a escolher muita coisa.
Bem, o fato é que semana passada pegamos uma carona para o melhor mercado da cidade. As mesmas prateleiras cosmopolitas, até biscoitos brasileiros encontramos... Ah, e muito congelado da Sadia. O fato é que com essa limitação não dá pra ousar muito na cozinha. Compramos umas coisinhas e umas salsichas que achamos legais. Dito e feito. Conseguimos perceber uma enorme diferença de sabor e qualidade para umas outras em conserva que tínhamos comprado. Por um instante, me senti como um enólogo experiente, calculando com precisão a safra de um tipo especifico de uva cujo vinho acabara de provar. Se por um lado as salsichas não são tão chiques quanto os vinhos, nessa situação me parece mais vantagem conhecê-las melhor do que aos vinhos. Afinal de contas, nessa confusão de marcas e produtos, acho difícil que eu tente algo muito diferente dos gatos pretos e concha y toros que tenho visto por aí.

terça-feira, 13 de março de 2012

Entendimento Cultural


Uma das grandes experiências por aqui é mesmo o contato com a diversidade cultural. E voltaremos a isso algumas vezes, claro, sempre que for possível dividir com vocês. Outro dia, por exemplo, encontramos nosso amigo Montenegrino, um cara realmente muito bacana, muito correto, com quem começamos um papo muito interessante.
Num ambiente internacional, estamos sempre lutando contra os estereótipos que carregamos. Banana, macaco, arco e flecha, espanhois são nossos tradicionais "inimigos". Mas será que também não temos estereótipos na direção das outras pessoas ou nações?! Conversar com alguém dos Balcãs, por exemplo, é sempre uma excelente oportunidade de lançar luzes sobre uma história intricada, cheia de nuanças. O principal problema, segundo ele mesmo, é que "construíram uma casa no meio da estrada". Todo mundo quer passar, daí o bicho pega muitas vezes. E como pega.
No meio da rota da seda, não avaliamos que impediram praticamente sozinhos o avanço otomano para a Europa, o que ampliaria ainda mais a influência árabe no velho continente e consequentemente em nós mesmos. Ignoramos que a maioria da região fala o idioma sérvio e que tal idioma pode usar tanto o alfabeto latino como cirílico, que é o do Russo. Aliás, que cada letra admite apenas um som, o que representa uma vantagem e tanto para se aprender: pronuncia-se rigorosamente o que se escreve.
Observador militar experimentado, está terminando sua segunda missão de um ano na Libéria, tendo convivido com muita gente, muitas nacionalidades. Dividindo conosco seus "causos", disse que certa feita um colega recém chegado, após alguns dias sem lhe trocar uma palavra, virou pra ele e disse: "é... você parece normal..." Sem entender, perguntou o porque e o tal colega seguiu dizendo que achava que todos as pessoas daquela região fossem "assassinos", é mole? Em outra oportunidade, um policial americano começou a andar com ele e com os colegas sérvios, faziam churrascos etc... Quando muito tempo depois entraram no assunto de guerra e o policial teve que descobrir estupefato que os EUA haviam bombardeado a região com bombas de ogivas "sujas" de urânio e plutônio... O pior é que esse colega Montenegrino, pessoalmente, dedicou-se à descontaminação das áreas... Incrédulo, o tal policial americano teve que ir à internet para se certificar e a partir daí passou a se desculpar a todo instante, querendo de alguma forma reparar os atos de seu país... E me parece que fora do nosso país, em extrema minoria, nos tornamos ainda mais reféns de seus atos e decisões. Somos levados a justificar e expiar seus mandos e desmandos... Estranha sensação...
Quantos aos nossos amigos dos Balcãs, nós não imaginamos que eles professem a fé católica ortodoxa e que no início da guerra contra a Croácia, que marcou o final da ex-Iuguslávia a partir de 1991, os pais desse homem que tem a minha idade, ganhavam 2000 em moeda local e que durante a guerra chegaram a ganhar apenas 5. Aliás, nos dispomos no máximo a imaginar e imaginar... erigir pré-conceitos... mas poucas vezes somos capazes de olhar para nós mesmos e buscar luzes para as trevas às quais nós mesmos sentenciamos... Poucas vezes temos coragem de sequer ensaiar o mote descrito na parede "campus principal" da universidade do país que viemos ajudar: "Lux in Tenebris".

quinta-feira, 8 de março de 2012

Carteira de Motorista


Se tem uma coisa que é obrigatória numa missão da ONU, é a tal carteira de motorista. Não que todo mundo tenha a mesma experiência... Eu tenho 18 anos de carteira e dirijo muito mesmo, viajo bastante, o que me dá certa experiência. Mas há países em que não há uma cultura automobilística muito forte ou acaba sendo restrita a uma classe social. Há quem prefira bicicletas ou transportes públicos modernos, ou ainda tradicionais - lembrem que há muitos países sob o chapéu da ONU, mais do que jamais conheceremos. Há inclusive os próprios liberianos que aos poucos passam a ser reintegrados e muitas vezes empregados pela própria missão. E são os que se pronunciam dizendo ter apenas um ano de carteira.
Experientes ou não, o fato é que temos que ter a tal chancela da ONU para assumirmos a boleia das belas Nissan Patrol por aqui. Alguns Toyota, hillux, antigos 4Runners, Prado, mas a grande maioria Nissan. Aliás, começo a compreender melhor os americanos... A gente se acostuma tanto a ver a tal Patrol, que ao volante mais parece um trator, de tão forte e robusta, que as Hillux começam a parecer carro de brinquedo.
Primeiro uma instrução teórica, uma prova de conhecimentos básicos de trânsito e, em seguida, uma prática, composta por uma baliza simples e outra de ré a 90 graus, que aliás é o padrão para estacionar por aqui. Antes de dizerem que é bobagem, considerem o tamanho da tal Patrol, que é maior que a Xterra que as vezes vemos por aí. Além disso, há uma outra parte que é um treinamento de condução off-road, com parte teórica e prática numa areia de praia muito frouxa! Bem, mas nada muito difícil realmente. Passamos com folga e ainda ganhei um "Good Driver" do instrutor filipino.

terça-feira, 6 de março de 2012

Capital Monróvia, primeiras impressões


Chegamos ao aeroporto de Roberts por volta da 13h do dia 29 de fevereiro. De cara muitas aeronaves da ONU, um esquadrão muito grande dos gigantes helicópteros Antonov, russos, verdadeiros caminhões voadores, de tão fortes e rústicos. O letreiro pintado, ao invés dos tradicionais luminosos, junto com as propagandas institucionais incentivando a união do povo para a reconstrução do país, apontam o clima geral. Todos para a imigração. Foi a primeira vez na viagem que não encontramos fila exclusiva para o passaporte diplomático. Muita gente desfilando com o uniforme das Forças Armadas Liberianas, organizando filas e o trânsito das pessoas. Teto baixo de madeira, tudo tem pinta de instalação provisória mesmo. Em seguida, grata surpresa: nossas malas já giravam pela esteira em velocidade vertiginosa. Coitadas, sentiam nossa falta e eram o centro de nossa preocupação, já que a última vez que as havíamos visto fora em São Paulo, 2 dias atrás... O fato é que enquanto nos viramos para procurar um carrinho, já havia um rapaz, com ar oficial, um tipo de macacão e crachá habilmente acomodando nossas malas num carrinho. Solícito, muito solícito. Confiante, dava orientação, pedia que estivéssemos com os tickets de bagagem na mão, depois, empurrando o carrinho, perguntando quem seria nossa carona ou se precisávamos de taxi. Sem achar o major de primeira, nos levou até um espécie lanchonete na parte de fora. Aí se vai a primeira gorjeta em solo Liberiano.
Quase que instantaneamente se apresentou um outro cara, dizendo-se segurança da lanchonete, nos convidando para sentar. Dissemos que não, que precisávamos apenas encontrar nossa carona. Não seja por isso, disse, apanhou o carrinho e nos acompanhou até a parte da frente do aeroporto, aguardando conosco, tentando ajudar de alguma forma a achá-la. Solícito, muito solícito. Olhamos ao redor e a questão é que víamos vários carros da ONU. E agora? Mas em seguida vimos uma Toyota 4Runner Branca dando a volta com um motorista de uniforme igual ao nosso. Como só existem 3 pessoas com esse mesmo uniforme em todo o país e nós éramos as outras 2, a terceira só poderia ser o Major que nunca tínhamos visto. Dito e feito. Nosso sempre solicito auxiliar nos acompanhou até o carro, ajudando a acomodar as malas. Mais uma gorjetinha, a segunda em menos de 15 minutos. Tudo provisório, o ambiente meio complexo demais para ser lido imediatamente, uma ajuda oportuna pode garimpar uns poucos dólares. Se um dólar não seria muito por ai, por essas bandas parece bem mais, aliás, pra ser preciso, é exatamente 70 vezes mais. E assim começa nossa vida por aqui, com uma centena de dólares Liberianos a menos. God bless us all.