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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Ramadã acaba em festa... mas muito cuidado ao comer!

Esta semana acabou o Ramadã. Na verdade acabou antes de ontem, sábado. Ramadã é o mês em que os muçulmanos se dedicam ao jejum e  intensificam as orações. Para quem não sabe, os muçulmano, todos os dias do ano, cumprem 5 orações diárias, voltados para Meca e de preferência sobre seu tapetinho, uma vez que em algumas orações eles devem se ajoelhar e tocar a cabeça no chão. Mas o fato é que durante o Ramadã rezam ainda mais. Não raro durante o dia, nessa época, é comum encontrá-los com uma espécie de terço na mão, ou mesmo contadores digitais ou analógicos, firmes, numa espécie do que seria uma ladainha para os católicos. Aliás, aos desavisados, nem existe tanta diferença assim entre nós e os muçulmanos. Mas uma dia falo sobre isso...
Bem, essa parte da oração é razoavelmente simples. Ou nem tanto, porque para se cumprir as cinco orações principais do dia é necessário uma espécie de purificação da cabeça, das mãos e dos pés, realizada com água, que deve seguir uma determinada sequência (três vezes cada ponto, da direita para a esquerda). Mas isso eles estão acostumados: no Ramadã, o que complica, na prática, é o tal do jejum. E não é jejum de substituir carne por peixe só na sexta-feira santa. Daí tem gente que pede MacFish com batata grande e sandae de chocolate e acha que está cumprindo o protocolo! É jejum mesmo: eles não podem comer ou beber nada durante a luz do sol. E os caras são detalhistas: a artilharia do islã, por exemplo, deve ser uma das mais precisas do mundo! Aliás, Islã é o conjunto dos povos de civilização islâmica; islamismo é a religião criada pelo profeta Maomé no final dos anos 600 depois de Cristo; e muçulmano, ou islamita, é o indivíduo que pratica a religião. Outra coisa: por favor gente, muçulmano e árabe não são a mesma coisa! Pra ser árabe tem que falar árabe e estar num país da Liga Árabe, a maior parte do oriente médio, onde nasceu a religião islâmica. Só que os árabes representam hoje apenas a 18% dos fiéis. Outros 30% estão no subcontinente indiano, principalmente no Paquistão e em Bangladesh. A África é a casa de outros 20% e a Ásia 17%, sendo que a maior comunidade islâmica do mundo está na Indonésia.


Voltando ao jejum: não pode fumar ou sequer beber água durante o dia! Me dei conta disso quando voltava de uma patrulha na fronteira com meu amigo Adamou, de Níger, ambos de colete a prova de balas, e me deu uma vontade enorme de beber água... Aí olhei pra ele com seu contador de orações na mão e resolvi confirmar: "líquidos, cigarro, sexo, nada!!" Afff... Na hora exata do pôr do sol, fazem uma oração especial que se chama Iftar, onde se refastelam num laudo buffet. No dia seguinte, cinco e alguma coisa da manhã, na hora exata do alvorecer, logo após tomarem café da manhã: mão na cabeça! Agora é rezar e esperar pela noite mais uma vez! É lógico que há perda de produtividade, muitos tentam dormir horas a fio, mas... Temos que ter uma espécie de tolerância cultural. Colher de chá mesmo só para crianças, grávidas, idosos e doentes, que ficam dispensados do jejum. Se você viajar ou tiver algum problema, pode até suspender o jejum por alguns dias, mas tem que pagar com juros no final!!
Mas ontem teve um jantar aqui na Companhia do Batalhão Nigeriano pra marcar o final do Ramadã. Como é um tempo de recolhimento, como a Quaresma, no final as pessoas festejam, visitam uns aos outros, numa festa chamada Eid El Fitr, cuja tradução tem alguma coisa a ver com felicidade. Bem, a Nigéria é um exemplo de maioria muçulmana na África (aliás, tem até problemas com extremistas). Portanto, primeira moral da história: muitos africanos são muçulmanos! Pra ser mais preciso, boa parte do oeste africano e o norte da áfrica subsaariana faz parte do Islã. Países como Sudão, Nigéria, Mali, Níger, Senegal, Gâmbia, Guiné e Serra Leoa variam entre 50 a 70 por cento de muçulmanos. Já no norte da África, na chamada áfrica mediterrânea, esse número chega a 90% (é o chamado Magreb, do árabe sol poente). No jantar, sentei ao lado do subcomandante, aí vieram as homenagens, sempre destacando os “ilustres observadores militares presentes”. Tempo para dançar! Na África, geralmente a festa sempre tem pouca luz, de preferência algumas luzes coloridas, e muito, mas muita música. Aí chegou a hora do jantar: malandro, vim de mansinho, e coloquei bastante arroz e salada. Ahmed, o Jordaniano, até sabia, mas sofreu com a sua porção de carne. Pimenta, muita pimenta! Eu, que me achei safo, pimba: na salada até que não, mas até no arroz tinha pimenta! Aí era aguentar... E não dava para fazer desfeita sentado ao lado do anfitrião. A costa ocidental da África, ao longo do Golfo da Guiné, aquela curva que se encaixaria ao Brasil, também é conhecida como Costa da Pimenta. Enfim, segunda moral da história: ao viajar por aí, nunca sente do lado do anfitrião! Portanto, muito cuidado com a comida por aqui... Afinal de contas, roupas, mesquitas e hábitos podem até lembrar as arábias, de alguma forma, mas isso aqui continua sendo África! Ou vocês acham que foram os baianos que inventaram a pimenta? ;-)

terça-feira, 26 de junho de 2012

Várias formas de se dizer Bom Dia!!

Esse fim de semana estávamos Brasil (eu!), Dinamarca, Estados Unidos, Itália e Canadá conversando sobre esse negócio de cumprimentar pessoas e a dúvida, em certa altura, era se os homens franceses davam ou não beijinhos na bochecha quando se encontravam. Bem, disse que tinha estado lá recentemente e que realmente achava que não, maaassss... os argentinos... Por favor, nada contra nossos hermosos vizinhos, todos sabemos que essa tal rixa é só folclore, mas que os homens se beijam, eles se beijam... Assim como a gente, quando encontramos algumas "amigas" no bar, na porta da balada, num aniversário etc. Enfim, beijar a bochecha de uma cara que não é seu pai pode parecer meio estranho pra nós. Mas por favor, respeitemos a cultura do vizinho :-P
Bem, mas depois disso fiquei pensando... A maneira de nos cumprimentar é sim um de nossos traços culturais mais específicos e importantes, até porque usamos diariamente, até mesmo várias vezes durante o dia. Por exemplo, estive na França outro dia (ninguém é de ferro, tive que descansar um pouco...), onde ninguém se aproxima de você sem pedir licença ou desejar de cara um caloroso bom dia: Bonjour! No Brasil somos tão econômicos com essas coisas... Aliás, na França, a contato com o outro nunca está completo se não dissermos obrigado, tchau e realmente desejarmos um bom dia: Merci, Au revoir, bonne journée... Este último corresponde ao desejo de uma “boa jornada”, um "bom dia de trabalho", numa tradução bem forçada, mas enfim: é o desejo de que todo o resto do dia lhe seja realmente bom. À noitinha, há ainda o bonne soirée, que serve como “noitada”, mas que não tem nada a ver com festas e excessos. Italianos, aliás, têm os mesmos termos: Buona Giornata ou Buona Serata. E nós, como economizamos hein...
Por outro lado, nós temos essa mania de tocar nas pessoas por tudo e os homens a cultura do aperto de mão. Outro dia, referindo-se a um outro companheiro, um colega falou no escritório: “eu não sei pra quê esse negócio de apertar as mãos todos os dias... Nós trabalhamos juntos, nos vemos todos os dias, precisa ficar passando micróbio um para o outro diariamente?”. Na dúvida, particularmente, eu nunca tomo iniciativa, dou um bom dia geral e pronto...
Ao mesmo tempo, cumprimentar dentro do código de valores do outro pode ser um sinal de respeito e consideração. Por isso, costumo cumprimentar meus amigos muçulmanos da maneira deles, ou seja, em substituição ao Bom Dia ou ao Boa Tarde: Assalamu alaikum cuja resposta é Alaikum assalaam. É um significado bonito que eu acho merece ser replicado: “que a Paz de Deus esteja contigo”, e a resposta, “e sobre você a Paz Dele”. São termos árabes, mas que servem aos muçulmanos de todos os idiomas, até porque todos eles são estimulados a estudar árabe para ler o Corão na versão original.
              Na Libéria, evidentemente, haveria de ter suas peculiaridades... Portanto, para começar, eles adoram um Hello. Esse é o cumprimento básico e universal: “Oi”! Simples assim, mas de preferência bem simpático, o que normalmente motiva recebemos de volta um Hi ou Hello muito caloroso. Podemos ainda tentar um Ya Hello, que é um “Hello pra todos vocês". Outro dia tentei esse cumprimento simples quando fui bater papo com umas 200 crianças de uma escola e recebi um caloroso e uníssono HI!!! Umas belezinhas... O fato é que andamos por aí falando com as pessoas e é importante saber o código local. E depois do Hello, sempre que possível, vai vir um aperto de mão (eles gostam muito). Só que não é um aperto de mão comum. Depois do aperto de mão como conhecemos (fase normal, brasileira digamos), quando as mãos vão se separar, o dedo maior de ambos escorrega pela mão do outro até encontrar sua contraparte, é quando puxa-se a mão com força para produzir um estalo. Quanto maior o estalo, "melhor" o aperto de mão. Depois, pode-se ainda levar a mão até o meio do peito pra dizer que estamos sendo sinceros, o que funciona também para os muçulmanos de maneira geral. Portanto, quando me verem por aí nas fotos conversando com as pessoas, podem ter certeza que antes rolou um Hello caloroso e um aperto de mão que eu tenho tentando caprichar no estalado... Ah, e quanto ao meu colega dos micróbios? Bem, aprendemos que para quase tudo nessa vida se tem Mastercard... Para outras, muita paciência ou álcool gel ;-)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Que gosto isso tem?!


Já disse isso algumas vezes e cada vez tenho mais certeza de que a grande experiência cultural se dá na oportunidade de experimentarmos coisas diferentes do que conhecemos. Não estou falando de grandes travessuras juvenis, de suas pretensas rebeldias e irresponsabilidades. Falo de pequenas experiências ligadas aos costumes e muitas vezes à culinária. Aliás, com a globalização, poucas coisas são realmente novas e estamos lá, nos refastelando com comida árabe em qualquer esquina; ou um povo brabo danado como o "siarence", se emperequetando todo pra comer comida japonesa no Soho porque é chique. Nada contra, muito pelo contrário. Mas o fato é que num caldeirão cultural muito grande como o que eu vivo, há sempre oportunidade para aprendermos coisas novas, até mesmo com ingredientes que esse tal cosmopolitanismo moderno já nos apresentou.
Semana passada, não bastasse ter minha primeira aula particular de sauna, com os inventores do troço, continuei minhas viagens gastronômicas. Calma, antes de começarem os comentários jocosos, há uma toalha que concede certa proteção ao indivíduo. :-) Interessante saber que cada sauna, desde os antigos tempos, é governada por certa entidade, ligada à mitologia nórdica etc. O troço é mais ou menos seco e a temperatura é regulada jogando água nas pedras da caldeira, o que aumenta a sensação relativa de calor pela umidade.
Bem, o fato é que depois tivemos sopa para jantar. Na verdade, duas sopas. Na primeira, notei de cara o quiabo, ilustre convidado, prato predileto de meu amigo Cid. Alguns pimentões que me deixaram concerned, pois tenho aprendido que "novo" e "apimentado" são coisas que muitas vezes fazem sentido juntas por aqui. Por sorte não era o caso, eram inofensivos pimentões. Ah, e não adianta perguntar, porque além da sensação relativa de "apimentado" ser muito diferente de um país para outro, vocês não imaginavam que eu soubesse como se falava quiabo em inglês, não é? Lógico que não. O que me diriam de pimenta isso, pimenta aquilo?!?! Aliás, ainda não sei nem bem diferenciar os conceitos de "spyce" e "hot".
Mas o melhor da festa nesse dia realmente não foi a pimenta. Simplesmente se usou tamarindo para temperar a sopa! Não deixou de ser salgada, mas ganhou um componente marcadamente azedo. Se era bom?! O pior que era. Estranho num primeiro momento, mas bem interessante. O meu amigo Odilo que me perdoe, mas harmonizou muito bem com o bom e velho Casillero Cabernet Reserva que nos acompanhava no momento.
O prato principal era uma sopa de carne comum, com bastante vegetais, ervilhas, milho, alface. Comum, mas muito boa. Meio como sobremesa, também tivemos suco. Aliás, já era de se esperar, as frutas aqui são muito boas. Mas nunca tinha experimentado essa mistura específica. Simplesmente era suco de abacaxi com gengibre! Nunca morri de amores por abacaxi, mas os daqui são extremamente doces e suculentos, em nada se aproximam da citricidade dos daí. Com o toque do gengibre ficou simplesmente espetacular! E me disseram que as frutas no interior são ainda melhores... Por isso, a moral da história talvez seja justamente essa: mesmo que você ache que não gosta de alguma coisa por aqui, prove! Os sabores podem ser bem diferentes. Afinal de contas, estamos na África e mal-gosto e preconceito podem simplesmente residir do outro lado do Atlântico... Por que não?? ;-)

terça-feira, 13 de março de 2012

Entendimento Cultural


Uma das grandes experiências por aqui é mesmo o contato com a diversidade cultural. E voltaremos a isso algumas vezes, claro, sempre que for possível dividir com vocês. Outro dia, por exemplo, encontramos nosso amigo Montenegrino, um cara realmente muito bacana, muito correto, com quem começamos um papo muito interessante.
Num ambiente internacional, estamos sempre lutando contra os estereótipos que carregamos. Banana, macaco, arco e flecha, espanhois são nossos tradicionais "inimigos". Mas será que também não temos estereótipos na direção das outras pessoas ou nações?! Conversar com alguém dos Balcãs, por exemplo, é sempre uma excelente oportunidade de lançar luzes sobre uma história intricada, cheia de nuanças. O principal problema, segundo ele mesmo, é que "construíram uma casa no meio da estrada". Todo mundo quer passar, daí o bicho pega muitas vezes. E como pega.
No meio da rota da seda, não avaliamos que impediram praticamente sozinhos o avanço otomano para a Europa, o que ampliaria ainda mais a influência árabe no velho continente e consequentemente em nós mesmos. Ignoramos que a maioria da região fala o idioma sérvio e que tal idioma pode usar tanto o alfabeto latino como cirílico, que é o do Russo. Aliás, que cada letra admite apenas um som, o que representa uma vantagem e tanto para se aprender: pronuncia-se rigorosamente o que se escreve.
Observador militar experimentado, está terminando sua segunda missão de um ano na Libéria, tendo convivido com muita gente, muitas nacionalidades. Dividindo conosco seus "causos", disse que certa feita um colega recém chegado, após alguns dias sem lhe trocar uma palavra, virou pra ele e disse: "é... você parece normal..." Sem entender, perguntou o porque e o tal colega seguiu dizendo que achava que todos as pessoas daquela região fossem "assassinos", é mole? Em outra oportunidade, um policial americano começou a andar com ele e com os colegas sérvios, faziam churrascos etc... Quando muito tempo depois entraram no assunto de guerra e o policial teve que descobrir estupefato que os EUA haviam bombardeado a região com bombas de ogivas "sujas" de urânio e plutônio... O pior é que esse colega Montenegrino, pessoalmente, dedicou-se à descontaminação das áreas... Incrédulo, o tal policial americano teve que ir à internet para se certificar e a partir daí passou a se desculpar a todo instante, querendo de alguma forma reparar os atos de seu país... E me parece que fora do nosso país, em extrema minoria, nos tornamos ainda mais reféns de seus atos e decisões. Somos levados a justificar e expiar seus mandos e desmandos... Estranha sensação...
Quantos aos nossos amigos dos Balcãs, nós não imaginamos que eles professem a fé católica ortodoxa e que no início da guerra contra a Croácia, que marcou o final da ex-Iuguslávia a partir de 1991, os pais desse homem que tem a minha idade, ganhavam 2000 em moeda local e que durante a guerra chegaram a ganhar apenas 5. Aliás, nos dispomos no máximo a imaginar e imaginar... erigir pré-conceitos... mas poucas vezes somos capazes de olhar para nós mesmos e buscar luzes para as trevas às quais nós mesmos sentenciamos... Poucas vezes temos coragem de sequer ensaiar o mote descrito na parede "campus principal" da universidade do país que viemos ajudar: "Lux in Tenebris".