terça-feira, 13 de março de 2012

Entendimento Cultural


Uma das grandes experiências por aqui é mesmo o contato com a diversidade cultural. E voltaremos a isso algumas vezes, claro, sempre que for possível dividir com vocês. Outro dia, por exemplo, encontramos nosso amigo Montenegrino, um cara realmente muito bacana, muito correto, com quem começamos um papo muito interessante.
Num ambiente internacional, estamos sempre lutando contra os estereótipos que carregamos. Banana, macaco, arco e flecha, espanhois são nossos tradicionais "inimigos". Mas será que também não temos estereótipos na direção das outras pessoas ou nações?! Conversar com alguém dos Balcãs, por exemplo, é sempre uma excelente oportunidade de lançar luzes sobre uma história intricada, cheia de nuanças. O principal problema, segundo ele mesmo, é que "construíram uma casa no meio da estrada". Todo mundo quer passar, daí o bicho pega muitas vezes. E como pega.
No meio da rota da seda, não avaliamos que impediram praticamente sozinhos o avanço otomano para a Europa, o que ampliaria ainda mais a influência árabe no velho continente e consequentemente em nós mesmos. Ignoramos que a maioria da região fala o idioma sérvio e que tal idioma pode usar tanto o alfabeto latino como cirílico, que é o do Russo. Aliás, que cada letra admite apenas um som, o que representa uma vantagem e tanto para se aprender: pronuncia-se rigorosamente o que se escreve.
Observador militar experimentado, está terminando sua segunda missão de um ano na Libéria, tendo convivido com muita gente, muitas nacionalidades. Dividindo conosco seus "causos", disse que certa feita um colega recém chegado, após alguns dias sem lhe trocar uma palavra, virou pra ele e disse: "é... você parece normal..." Sem entender, perguntou o porque e o tal colega seguiu dizendo que achava que todos as pessoas daquela região fossem "assassinos", é mole? Em outra oportunidade, um policial americano começou a andar com ele e com os colegas sérvios, faziam churrascos etc... Quando muito tempo depois entraram no assunto de guerra e o policial teve que descobrir estupefato que os EUA haviam bombardeado a região com bombas de ogivas "sujas" de urânio e plutônio... O pior é que esse colega Montenegrino, pessoalmente, dedicou-se à descontaminação das áreas... Incrédulo, o tal policial americano teve que ir à internet para se certificar e a partir daí passou a se desculpar a todo instante, querendo de alguma forma reparar os atos de seu país... E me parece que fora do nosso país, em extrema minoria, nos tornamos ainda mais reféns de seus atos e decisões. Somos levados a justificar e expiar seus mandos e desmandos... Estranha sensação...
Quantos aos nossos amigos dos Balcãs, nós não imaginamos que eles professem a fé católica ortodoxa e que no início da guerra contra a Croácia, que marcou o final da ex-Iuguslávia a partir de 1991, os pais desse homem que tem a minha idade, ganhavam 2000 em moeda local e que durante a guerra chegaram a ganhar apenas 5. Aliás, nos dispomos no máximo a imaginar e imaginar... erigir pré-conceitos... mas poucas vezes somos capazes de olhar para nós mesmos e buscar luzes para as trevas às quais nós mesmos sentenciamos... Poucas vezes temos coragem de sequer ensaiar o mote descrito na parede "campus principal" da universidade do país que viemos ajudar: "Lux in Tenebris".

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