Esta semana acabou o Ramadã. Na verdade acabou antes de ontem, sábado. Ramadã é o mês em que os muçulmanos se dedicam ao jejum e intensificam as orações. Para quem não sabe, os muçulmano, todos os dias do ano, cumprem 5 orações diárias, voltados para Meca e de preferência sobre seu tapetinho, uma vez que em algumas orações eles devem se ajoelhar e tocar a cabeça no chão. Mas o fato é que durante o Ramadã rezam ainda mais. Não raro durante o dia, nessa época, é comum encontrá-los com uma espécie de terço na mão, ou mesmo contadores digitais ou analógicos, firmes, numa espécie do que seria uma ladainha para os católicos. Aliás, aos desavisados, nem existe tanta diferença assim entre nós e os muçulmanos. Mas uma dia falo sobre isso...
Bem, essa parte da oração é razoavelmente simples. Ou nem tanto, porque para se cumprir as cinco orações principais do dia é necessário uma espécie de purificação da cabeça, das mãos e dos pés, realizada com água, que deve seguir uma determinada sequência (três vezes cada ponto, da direita para a esquerda). Mas isso eles estão acostumados: no Ramadã, o que complica, na prática, é o tal do jejum. E não é jejum de substituir carne por peixe só na sexta-feira santa. Daí tem gente que pede MacFish com batata grande e sandae de chocolate e acha que está cumprindo o protocolo! É jejum mesmo: eles não podem comer ou beber nada durante a luz do sol. E os caras são detalhistas: a artilharia do islã, por exemplo, deve ser uma das mais precisas do mundo! Aliás, Islã é o conjunto dos povos de civilização islâmica; islamismo é a religião criada pelo profeta Maomé no final dos anos 600 depois de Cristo; e muçulmano, ou islamita, é o indivíduo que pratica a religião. Outra coisa: por favor gente, muçulmano e árabe não são a mesma coisa! Pra ser árabe tem que falar árabe e estar num país da Liga Árabe, a maior parte do oriente médio, onde nasceu a religião islâmica. Só que os árabes representam hoje apenas a 18% dos fiéis. Outros 30% estão no subcontinente indiano, principalmente no Paquistão e em Bangladesh. A África é a casa de outros 20% e a Ásia 17%, sendo que a maior comunidade islâmica do mundo está na Indonésia.
Voltando ao jejum: não pode fumar ou sequer beber água durante o dia! Me dei conta disso quando voltava de uma patrulha na fronteira com meu amigo Adamou, de Níger, ambos de colete a prova de balas, e me deu uma vontade enorme de beber água... Aí olhei pra ele com seu contador de orações na mão e resolvi confirmar: "líquidos, cigarro, sexo, nada!!" Afff... Na hora exata do pôr do sol, fazem uma oração especial que se chama Iftar, onde se refastelam num laudo buffet. No dia seguinte, cinco e alguma coisa da manhã, na hora exata do alvorecer, logo após tomarem café da manhã: mão na cabeça! Agora é rezar e esperar pela noite mais uma vez! É lógico que há perda de produtividade, muitos tentam dormir horas a fio, mas... Temos que ter uma espécie de tolerância cultural. Colher de chá mesmo só para crianças, grávidas, idosos e doentes, que ficam dispensados do jejum. Se você viajar ou tiver algum problema, pode até suspender o jejum por alguns dias, mas tem que pagar com juros no final!!
Mas ontem teve um jantar aqui na Companhia do Batalhão Nigeriano pra marcar o final do Ramadã. Como é um tempo de recolhimento, como a Quaresma, no final as pessoas festejam, visitam uns aos outros, numa festa chamada Eid El Fitr, cuja tradução tem alguma coisa a ver com felicidade. Bem, a Nigéria é um exemplo de maioria muçulmana na África (aliás, tem até problemas com extremistas). Portanto, primeira moral da história: muitos africanos são muçulmanos! Pra ser mais preciso, boa parte do oeste africano e o norte da áfrica subsaariana faz parte do Islã. Países como Sudão, Nigéria, Mali, Níger, Senegal, Gâmbia, Guiné e Serra Leoa variam entre 50 a 70 por cento de muçulmanos. Já no norte da África, na chamada áfrica mediterrânea, esse número chega a 90% (é o chamado Magreb, do árabe sol poente). No jantar, sentei ao lado do subcomandante, aí vieram as homenagens, sempre destacando os “ilustres observadores militares presentes”. Tempo para dançar! Na África, geralmente a festa sempre tem pouca luz, de preferência algumas luzes coloridas, e muito, mas muita música. Aí chegou a hora do jantar: malandro, vim de mansinho, e coloquei bastante arroz e salada. Ahmed, o Jordaniano, até sabia, mas sofreu com a sua porção de carne. Pimenta, muita pimenta! Eu, que me achei safo, pimba: na salada até que não, mas até no arroz tinha pimenta! Aí era aguentar... E não dava para fazer desfeita sentado ao lado do anfitrião. A costa ocidental da África, ao longo do Golfo da Guiné, aquela curva que se encaixaria ao Brasil, também é conhecida como Costa da Pimenta. Enfim, segunda moral da história: ao viajar por aí, nunca sente do lado do anfitrião! Portanto, muito cuidado com a comida por aqui... Afinal de contas, roupas, mesquitas e hábitos podem até lembrar as arábias, de alguma forma, mas isso aqui continua sendo África! Ou vocês acham que foram os baianos que inventaram a pimenta? ;-)

























