Já disse isso algumas vezes e cada vez tenho mais certeza de que a grande experiência cultural se dá na oportunidade de experimentarmos coisas diferentes do que conhecemos. Não estou falando de grandes travessuras juvenis, de suas pretensas rebeldias e irresponsabilidades. Falo de pequenas experiências ligadas aos costumes e muitas vezes à culinária. Aliás, com a globalização, poucas coisas são realmente novas e estamos lá, nos refastelando com comida árabe em qualquer esquina; ou um povo brabo danado como o "siarence", se emperequetando todo pra comer comida japonesa no Soho porque é chique. Nada contra, muito pelo contrário. Mas o fato é que num caldeirão cultural muito grande como o que eu vivo, há sempre oportunidade para aprendermos coisas novas, até mesmo com ingredientes que esse tal cosmopolitanismo moderno já nos apresentou.
Semana passada, não bastasse ter minha primeira aula particular de sauna, com os inventores do troço, continuei minhas viagens gastronômicas. Calma, antes de começarem os comentários jocosos, há uma toalha que concede certa proteção ao indivíduo. :-) Interessante saber que cada sauna, desde os antigos tempos, é governada por certa entidade, ligada à mitologia nórdica etc. O troço é mais ou menos seco e a temperatura é regulada jogando água nas pedras da caldeira, o que aumenta a sensação relativa de calor pela umidade.
Bem, o fato é que depois tivemos sopa para jantar. Na verdade, duas sopas. Na primeira, notei de cara o quiabo, ilustre convidado, prato predileto de meu amigo Cid. Alguns pimentões que me deixaram concerned, pois tenho aprendido que "novo" e "apimentado" são coisas que muitas vezes fazem sentido juntas por aqui. Por sorte não era o caso, eram inofensivos pimentões. Ah, e não adianta perguntar, porque além da sensação relativa de "apimentado" ser muito diferente de um país para outro, vocês não imaginavam que eu soubesse como se falava quiabo em inglês, não é? Lógico que não. O que me diriam de pimenta isso, pimenta aquilo?!?! Aliás, ainda não sei nem bem diferenciar os conceitos de "spyce" e "hot".
Mas o melhor da festa nesse dia realmente não foi a pimenta. Simplesmente se usou tamarindo para temperar a sopa! Não deixou de ser salgada, mas ganhou um componente marcadamente azedo. Se era bom?! O pior que era. Estranho num primeiro momento, mas bem interessante. O meu amigo Odilo que me perdoe, mas harmonizou muito bem com o bom e velho Casillero Cabernet Reserva que nos acompanhava no momento.
O prato principal era uma sopa de carne comum, com bastante vegetais, ervilhas, milho, alface. Comum, mas muito boa. Meio como sobremesa, também tivemos suco. Aliás, já era de se esperar, as frutas aqui são muito boas. Mas nunca tinha experimentado essa mistura específica. Simplesmente era suco de abacaxi com gengibre! Nunca morri de amores por abacaxi, mas os daqui são extremamente doces e suculentos, em nada se aproximam da citricidade dos daí. Com o toque do gengibre ficou simplesmente espetacular! E me disseram que as frutas no interior são ainda melhores... Por isso, a moral da história talvez seja justamente essa: mesmo que você ache que não gosta de alguma coisa por aqui, prove! Os sabores podem ser bem diferentes. Afinal de contas, estamos na África e mal-gosto e preconceito podem simplesmente residir do outro lado do Atlântico... Por que não?? ;-)