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quarta-feira, 18 de abril de 2012

O idioma nas ruas e o papel do "language assistant"

O idioma oficial da Libéria é o inglês. Entretanto, na prática, como em outros países, existem outras línguas e dialetos em uso. Os limites dessas línguas e dialetos locais são, normalmente, os vigentes entre as diversas tribos que compõem os chamados “Liberianos Indígenas”. O inglês era falado pelos “Liberianos Americanos”. No início, representavam 5% da população, gozavam do amplo apoio estadunidense e monopolizaram a administração do país por mais de 100 anos, o suficiente para expandir traços da cultura assimilada para o restante do país.
Procuro não esquecer as aulas que tive, mesmo em priscas eras. Lembrei agorinha das aulas de história antiga do saudoso Prof. Amora (que tirando um “a” fica Amor, rsrs), na sétima série do CMF. Na Roma antiga, uma coisa era o Latim falado pelos mais cultos, outra coisa era o latim corrente, utilizado nas ruas. Pois bem, aqui sinto muito claramente essa diferença. No Brasil, além de não sofrermos a pressão interna de outros idiomas, o nível geral de alfabetização da população é certamente bem maior do que aqui, o que não nos permite perceber essas fronteiras.
Bem, aqui tive uma aula de história com um liberiano formado em sociologia. O sotaque marcava um pouco, mas era completamente inteligível. Outra vez fui a uma operadora de celular, dificílimo de entender a moça, que ainda tinha uns dentinhos pra fora e falava com a boca entre aberta (depois vim saber que a abertura dos dentes poderia ser a indicação de nobreza em determinadas tribos)... A coisa caminha realmente para uma corruptela do inglês, por isso, “God” vira “Gó”; “Because”, vira “Bicó” e aí por diante... Aos pouquinhos a gente vai acostumando o ouvido... Na capital e no comércio, a coisa ainda vai, mas quando estamos em patrulhas por esse interior de meu Deus, aí o bicho pega...

Para mitigar esses problemas, um grande aliado é certamente o chamado Language Assistant, ou Assistente Linguístico. Ele é um indivíduo local, capaz de se comunicar nos idiomas regionais e no nosso. Alem disso cumpre o papel de assessor cultural, tentando traduzir não apenas as falas, mas as idiossincrasias. Ao chegarmos no vilarejo é o primeiro a saltar do veículo e começar a perguntar pelo Town Chef  (Chefe da Cidade). Extrapola, portanto, o papel de um tradutor.

Bem, o fato é que o principal papel dos Military Observers (Milobs ou ainda UNMOs – United Nations Military Observers) é o de observar e reportar. Para tal, entender o que as pessoas falam e circunstanciar dentro das realidades locais é o primeiro passo. Se se vai aguçar o ouvido, perguntar várias vezes ou lançar mão de intérpretes ou Language Assistants, isso é um segundo problema... E, de onde eu venho, os primeiros problemas têm sempre prioridade sobre os segundos... A missão tem tem que continuar ;-)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Uma experiência de super-herói

Quando a aeronave pousou em Poe River Middle Town faltava muito pouco para as 11 horas da manhã. De onde estava, a direita, não percebi muita coisa, a não ser algumas casas enquanto o helicóptero se aproximava lento. Da escotilha aberta via um resto de grama e em seguida o adensamento da mata. A porta era do lado oposto e meu colega foi o primeiro a descer. Recém chegado, uma das primeiras missões. Não poderia imaginar o que aconteceria. Não acreditei. Estava todo o vilarejo, mulheres, crianças, jovens e adultos, contidos no limite do campo, talvez pelo medo ou pelo respeito àquela enorme geringonça alada. Quando nos viram, explodiam de emoção, mulheres gritavam, crianças corriam... surreal.
Logo se aproximaram os chefes do povoado de pouco mais de 1.000 pessoas, que na África invariavelmente são os homens, os mais velhos. Dissemos que queríamos conversar e fomos conduzidos para uma espécie de cajueiro gigante, de sombra farta... Surgiam cadeiras, uma mesa e até mesmo uma toalha para compor o ambiente do meeting. Nos convidaram para sentar, o chefe da vila ao centro. O mais letrado assume a palavra, se apresenta, apresenta as autoridades locais e externa a imensa alegria de receber-nos.
  Com o compromisso de responderem tão somente a verdade, percorremos nosso extenso questionário e pontuávamos as respostas para o relatório. Isso é a vida do Observador: olhos e ouvidos da ONU, observar e relatar. Para o vilarejo, o principal problema é o acesso. A estrada mais próxima fica a duas horas de caminhada. Estão construindo uma clínica e o cimento vem todo sobre a cabeça. “Somos muito fortes”, repetiam. Malária, diarreia e afecções diversas do trato respiratório são queixas certas (não esqueçamos que a África ainda luta contra a tuberculose). Perguntei se havia minas de qualquer natureza na região, responderam que não, que há mais de 10 anos não mexem com isso, que a esperança de riqueza tirava as crianças da sala de aula. A vila vive da agricultura de subsistência, do arroz, da caça, da pimenta... E a escola era outro problema: não tinham construção apropriada. Os cerca de 300 alunos disputavam lugar com os animais que à noite se abrigavam naquele telheiro sem paredes. E os “quadros-negros estão muito ruins”, me dizia o chefe. Antes de partirmos, ainda nos deram água de coco para agradecer-nos a visita.


Anotamos tudo, fotografamos e reportamos. É o nosso trabalho... Novato, só fui perceber lá pelo final da patrulha que helicóptero, escolta armada, população em polvorosa, tudo isso, no final das contas, era para mim e para meu colega, os ilustres observadores de paz da ONU... Só gostaria que voltasse para esse povo, quem sabe um dia, uma mínima parte do valor que aparentamos ter...

sábado, 7 de abril de 2012

Harper, destino final: a chegada


Com Silva Mendes e Amin, que tambem foi pra Zwedro
Dormi bem minha primeira noite. Sem roupa de cama, sem travesseiro, sem rede de mosquitos... Mas tinha o essencial: um cansaço muito grande, um colchão e um ventilador. Aconteceu que o cara lá no aeroporto não deixou embarcarmos tudo e prometeu mandar o resto no dia seguinte. Disse que tínhamos que escolher apenas o essencial. Nós tínhamos 5 volumes cada. 3 bagagens em si, mais um ventilador e um colchão. As bagagens não estavam preparadas contemplando uma situação dessas... Portanto, minhas primeiras duas escolhas foram fáceis: o ventilador e o colchão. Por último, apontei para a mala que eu lembrava ter colocado o material de higiene logo cedo.

Finalizada a questão da bagagem, aí vamos nós rumo ao bravo quadrimotor canadense: Dash-7. Aliás, a empresa era uma contratada da ONU; portanto, no meio do além, surgiram na porta do quadrimotor duas aeromoças de calças pretas e camisas bem brancas. Lógico que não havia serviço de bordo, mas ainda assim elas seguiam aqueles protocolos automatizados de apertar os cintos e apontar para a saída de emergência. O mais inusitado era, logo após tocarmos o solo em pistas de terra, elas despejarem o famoso “Sejam bem-vindos à Zwedro”, Greenvile ou Harper. Como assim, tão achando que tão na ponte aérea? Cada pernada não durava mais do que 45 minutos, seguidos de outros 30 a 45 no solo. E todos tinham que descer... Nota: realmente o Brasil está transformando seus aeroportos em Shoppings... Precisam ver a “estrutura aqui”.
Em Zwedro deixei meu bravo companheiro de turma, com quem dividi o tempo de preparação ano passado e com quem vinha sofrendo as aflições das esperas e das adaptações. Além disso, perdi a oportunidade de fazer aquele comentário em paralelo jocoso em português, falar sem esforço... A partir de agora, inglês todo tempo, no máximo um francês...
Aeronave na final em regra de voo visual, “Seja Bem-Vindo à Harper”! Lá estava meu Team Site Leader de Bangladesh me esperando. De posse do “essencial” que tinha escolhido, rumamos às 14h30min para a Companhia de Engenharia Paquistanesa para tentarmos almoçar. A cultura militar é igual em todo mundo mesmo... Lá estava um “cabo véio” da cozinha, que me disse que naquela hora só tinha feijão e arroz, mas que, se eu quisesse, ele poderia fritar um ovo. Não pensei duas vezes, até porque estava me clicando para o “essencial”. ;-)

O escritório fica a 3 minutos da casa. Fomos até lá para conhecer o restante do time. Em seguida, de volta à casa, me apresentaram o quarto. Pequeno, mas bom comparado com outros lugares por aí, inclusive com as acomodacoes do Silva Mendes. Não há água corrente, mas a energia bomba 24 horas por dia... Um outro verdadeiro luxo por aqui... No mais, espaço para a cama, uma escrivaninha pequenina e uma espécie de móvel que lembra um guarda-roupa sem porta. Nada mal. Só fica na parte de baixo da casa, uma espécie de subsolo, porque esta é a lei: os recém-chegados ficam com as piores condições. As pequenas “melhorias” acontecem paulatinamente, na medida em que formos ficando antigos no lugar.

Induction Training

Passamos umas 5 semanas na capital, o que não é normal, mas precisávamos passar pelo tal Induction Training, que é um treinamento obrigatório para quem chega na área da missão, antes de ser “deploiado” (deploy em inglês é o termo militar para ser enviado para seu posto em campanha, permitam-me o neologismo, mas é normal por aqui, rsrs...).
O treinamento transcorreu durante uma semana e pouco, com diversos temas e entidades... Se tiver tempo faço alguns comentários específicos. Mas os temas foram desde a organização da missão, na sua parte militar e civil, à condutas, procedimentos administrativos, temas sobre exploração e abuso sexual, igualdade de gêneros, Cruz Vermelha Internacional e por aí vai...
Deputy Force Comander - Gen da Nigeria
No final da semana, descobri que estava indo para Harper, na fronteira com a Costa do Marfim e o meu compatriota e amigo para Zwedro, um pouco mais para nordeste de Harper. Melhor ainda saber que há dois anos atrás meu afilhado de casamento, Clayton Pontes, esteve por aqui (estou escrevendo esse post depois, rsrs.. Aliás, Pontes, o “MovCom Guy” do campo de pouso daqui me pediu que lhe mandasse um abraço, e realmente lembrava o seu nome. É bom ver a consideração das pessoas, prova principalmente do seu bom trabalho e da maneira bacana como certamente tratava as pessoas). Considerando as opções que tínhamos, esses destinos foram muito bons...

No final do curso, como é normal: fotos, certificados, etc... Mais importante, liberdade de manobra para sermos postados em algum lugar e começarmos o trabalho que nos propusemos a fazer desde o início... Observar e reportar. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Carteira de Motorista


Se tem uma coisa que é obrigatória numa missão da ONU, é a tal carteira de motorista. Não que todo mundo tenha a mesma experiência... Eu tenho 18 anos de carteira e dirijo muito mesmo, viajo bastante, o que me dá certa experiência. Mas há países em que não há uma cultura automobilística muito forte ou acaba sendo restrita a uma classe social. Há quem prefira bicicletas ou transportes públicos modernos, ou ainda tradicionais - lembrem que há muitos países sob o chapéu da ONU, mais do que jamais conheceremos. Há inclusive os próprios liberianos que aos poucos passam a ser reintegrados e muitas vezes empregados pela própria missão. E são os que se pronunciam dizendo ter apenas um ano de carteira.
Experientes ou não, o fato é que temos que ter a tal chancela da ONU para assumirmos a boleia das belas Nissan Patrol por aqui. Alguns Toyota, hillux, antigos 4Runners, Prado, mas a grande maioria Nissan. Aliás, começo a compreender melhor os americanos... A gente se acostuma tanto a ver a tal Patrol, que ao volante mais parece um trator, de tão forte e robusta, que as Hillux começam a parecer carro de brinquedo.
Primeiro uma instrução teórica, uma prova de conhecimentos básicos de trânsito e, em seguida, uma prática, composta por uma baliza simples e outra de ré a 90 graus, que aliás é o padrão para estacionar por aqui. Antes de dizerem que é bobagem, considerem o tamanho da tal Patrol, que é maior que a Xterra que as vezes vemos por aí. Além disso, há uma outra parte que é um treinamento de condução off-road, com parte teórica e prática numa areia de praia muito frouxa! Bem, mas nada muito difícil realmente. Passamos com folga e ainda ganhei um "Good Driver" do instrutor filipino.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Óculos Escuros

          Óculos Escuros são tratados na maioria das vezes como acessórios. Entretanto, em algumas profissões, ainda mais em determinadas circunstâncias, se transformam em uma ferramenta de trabalho e seu uso, indispensável.
          Hão todos de convir que apenas um pouco acima do equador, na latitude aproximada de Boa Vista, Roraima, a luminosidade pode ser extremamente prejudicial. E  a luz não é a única questão. Há também a proteção dos olhos contra areia e outros fragmentos, ainda mais nos deslocamentos de viatura ou aeronave.
Gen Douglas MacArthur
         Os chineses do século XIV já utilizavam alguma proteção contra a luz. Os óculos escuros modernos, entretanto, só são inventados em 1929 e se tornam um fenômeno no século XX. Em 1936, por demanda dos militares, a fábrica Ray-Ban cria o modelo Aviador com lentes polarizadas para diminuir os reflexos das superfícies, que se tornariam um clássico no rosto do Gen MacArthur, durante a II Guerra mundial.
Cena do Filme Apocalypse Now
          No final dos anos 1960, a guerra do Vietnã foi o primeiro grande conflito do mundo intensamente coberto pela mídia televisiva, que ainda ensejou uma numerosa produção cinematográfica. Tais fatos, transformaram o modelo em um Hit, fazendo-o compor a imagem de um militar na cabeça de muitas pessoas.
          Embora o modelo aviador continue um clássico entre pilotos e os militares em uniforme de passeio, a indústria tem desenvolvido materiais ainda mais leves e resistentes, melhores adaptados à prática desportiva e ao emprego operacional. Um dos modelos mais utilizados atualmente é o do tipo "máscara", que acompanha a curvatura do rosto, protegendo as laterais dos olhos e não prejudicando a visão periférica. Além disso, a armação é comumente composta por materiais emborrachados, que mantém o óculos no lugar, mesmo com o rosto suado, movimentos bruscos e mudanças de direção do olhar.

          Diversas empresas fabricam modelos similares, com diferentes relações de custo e benefício. Entretanto, é necessário se considerar sempre a qualidade ótica, uma vez que se passará muitas horas por dia com os óculos no rosto. Algumas marcas possibilitam até mesmo a substituição das lentes por conjuntos reservas (Eng: spare lenses), vendidos avulsos. Há novamente a questão das lentes polarizadas (Eng: polirized lenses), que diminuem os reflexos do sol nas diversas superfícies, bem como lentes de diversas cores, dependendo do emprego específico. Outros acessórios bastante úteis, são estojos de proteção (Eng: cases) e suportes tipo cordão (Eng: strap) que se adaptam às pernas e servem para deixar os óculos pendurados no pescoço, quando for necessário retirá-los momentaneamente.
          O mercado é repleto de marcas nacionais e importadas. O fato é que é muito importante se provar o modelo que se adapte melhor ao rosto de cada um, aliando conforto e proteção. Pode-se começar a pesquisa com a Nacional Mormaii, passar pela tradicional Ray-Ban, até empresas como a  Oakley que tem bons produtos esportivos e uma linha especialmente dirigida para as forças armadas americanas (Linha Oakley Militarizada). Há diversas outras marcas que merecem ser consideradas e, sempre que possível, testadas no próprio rosto. Particularmente, optei por um Flak Jacket, da Oakley, com lentes XLJ (que é o design), Grey. Há um axioma muito utilizado mo meio militar, que é "quem tem um, não tem nenhum", chamando a importância para o dobramento dos meios importantes. Portanto, vou procurar um segundo modelo, provavelmente um M Frame ou Radar, também da Oakley e de preferência da linha militarizada, que no caso seria o Ballistic M Frame, que é o modelo em detalhe aí em cima.
Diferentes modelos em militares nacionais e canadenses :-)