Hoje é o dia da Independência da Libéria, que remonta ao dia em que se desligaram da American Colonization Society. Difícil não pensar no que realmente significam essas palavras. E tentar pensar fora do clichê de um tal monstro imperialista, que me parece bastante anacrônico numa época de tanta interdependência. Posso me arriscar a ser lacônico, pela falta de espaço, mas podemos pensar em interdependência desde quando se começa a fazer negócio nos primeiros burgos que começaram a decretar o final da idade média. Mais ainda quando se passa a produzir em escala industrial, o que encorajou vários imperadores a retalharem o continente africano. Mas hoje é o dia da independência da Libéria e o Wolo, nosso segurança, amanheceu o dia com o rádio ligado. E ontem perguntaram se faríamos alguma coisa para eles nessa data. Logo nos comprometemos a organizar uns peixes e alguns refrigerantes para todos eles: Wolo, Silvester, Jeah, Agoustin e Mama Alice, que cuida da nossa roupa.
A Libéria tem como máxima ser “the unique in Africa”. O que se pode traduzir como a “única na África”, mas num sentido de exclusividade, peculiaridade. Segundo o discurso repisado por eles, já nasceram livres. É o Lar da Liberdade, diz seu hino. Juntamente com a Etiópica, foram os únicos dois países do continente que não foram formalmente invadidos pelo tal neocolonialismo. Sei lá, talvez porque já falassem uma língua ocidental; ou talvez porque sua metrópole seja a rainha do soft power, cujos controles podem muito bem atravessar o Atlântico. O fato é que ainda hoje é mais fácil conseguir um visto para os Estados Unidos sendo Liberiano do que de qualquer outra nação Africana. Uma verdade? É que o país no qual se tem que ser liberiano nato, portanto negro, para se adquirir qualquer imóvel, surgiu mesmo foi do medo dos brancos. O desconforto de vê-los caminhando livres nas ruas da autoproclamada Terra da Liberdade, motivou o estratagema de mandá-los de volta sob uma justificativa nobre. Enquanto isso, agora mesmo, cortaram o gerador por uma hora e o rádio do Wolo acaba de fazer silêncio.
Hoje passaremos o dia patrulhando por aí, acompanhando as comemorações. Durante o dia é bem mais tranquilo: tem luz, podemos ver as pessoas atravessando as ruas de qualquer jeito, as crianças correndo atrás de suas bolas improvisadas. Meu amigo muçulmano me disse ontem que acompanharemos uma missa especial às 10h. É que ele já tinha me perguntado se pegaria mal pra mim se ele fosse comigo numa missa. Falei que não teria problema, que qualquer missa é pública – e ele arregalou os olhos admirado. Liberdade é assim mesmo: arregalar de olho, frio na barriga. Liberdade pressupõe tomar suas próprias decisões, às vezes andar sozinho, tentar novos caminhos, fitar novos horizontes. E isso tudo exige um monte de coragem e ainda assim pode não dar certo. Ainda mais porque detestamos errar e não suportamos ser culpados. Mais fácil é ter senhor, viver uma norma rígida, render menos no trabalho por passar o dia com fome.
Chego a pensar que a liberdade é realmente tinhosa: eu ainda não consegui enxergar nenhuma por aqui. Aliás, tenho visto muito pouca por aí também, para além destas fronteiras. Talvez não tenha tido tanta sorte, e me resta buscá-la em minhas ideias. Sorte mesmo é a do Wolo, por ter nascido num país livre: daqui de casa ele vai para o seu postinho de combustível, onde a gasolina é vendida em vidros de maionese e dá a ele 200 LD a cada dois dias (cerca de 3 dólares); em mais uns 20 minutos a energia volta e ele vai acompanhar pelo rádio na ONU as comemorações lá da capital; e ainda ofereceremos um peixinho pra comemorarem a data num jantar especial. Quem sabe a liberdade não está nisso, no gesto mínimo, na nossa atitude frente à vida? Feliz 165o aniversário de independência, Libéria.
