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quinta-feira, 26 de julho de 2012

26 de Julho: Dia da Independência da Libéria

Hoje é o dia da Independência da Libéria, que remonta ao dia em que se desligaram da American Colonization Society. Difícil não pensar no que realmente significam essas palavras. E tentar pensar fora do clichê de um tal monstro imperialista, que me parece bastante anacrônico numa época de tanta interdependência. Posso me arriscar a ser lacônico, pela falta de espaço, mas podemos pensar em interdependência desde quando se começa a fazer negócio nos primeiros burgos que começaram a decretar o final da idade média. Mais ainda quando se passa a produzir em escala industrial, o que encorajou vários imperadores a retalharem o continente africano. Mas hoje é o dia da independência da Libéria e o Wolo, nosso segurança, amanheceu o dia com o rádio ligado. E ontem perguntaram se faríamos alguma coisa para eles nessa data. Logo nos comprometemos a organizar uns peixes e alguns refrigerantes para todos eles: Wolo, Silvester, Jeah, Agoustin e Mama Alice, que cuida da nossa roupa.
A Libéria tem como máxima ser “the unique in Africa”. O que se pode traduzir como a “única na África”, mas num sentido de exclusividade, peculiaridade. Segundo o discurso repisado por eles, já nasceram livres. É o Lar da Liberdade, diz seu hino. Juntamente com a Etiópica, foram os únicos dois países do continente que não foram formalmente invadidos pelo tal neocolonialismo. Sei lá, talvez porque já falassem uma língua ocidental; ou talvez porque sua metrópole seja a rainha do soft power, cujos controles podem muito bem atravessar o Atlântico. O fato é que ainda hoje é mais fácil conseguir um visto para os Estados Unidos sendo Liberiano do que de qualquer outra nação Africana. Uma verdade? É que o país no qual se tem que ser liberiano nato, portanto negro, para se adquirir qualquer imóvel, surgiu mesmo foi do medo dos brancos. O desconforto de vê-los caminhando livres nas ruas da autoproclamada Terra da Liberdade, motivou o estratagema de mandá-los de volta sob uma justificativa nobre. Enquanto isso, agora mesmo, cortaram o gerador por uma hora e o rádio do Wolo acaba de fazer silêncio.
Hoje passaremos o dia patrulhando por aí, acompanhando as comemorações. Durante o dia é bem mais tranquilo: tem luz, podemos ver as pessoas atravessando as ruas de qualquer jeito, as crianças correndo atrás de suas bolas improvisadas. Meu amigo muçulmano me disse ontem que acompanharemos uma missa especial às 10h. É que ele já tinha me perguntado se pegaria mal pra mim se ele fosse comigo numa missa. Falei que não teria problema, que qualquer missa é pública – e ele arregalou os olhos admirado. Liberdade é assim mesmo:  arregalar de olho, frio na barriga. Liberdade pressupõe tomar suas próprias decisões, às vezes andar sozinho, tentar novos caminhos, fitar novos horizontes. E isso tudo exige um monte de coragem e ainda assim pode não dar certo. Ainda mais porque detestamos errar e não suportamos ser culpados. Mais fácil é ter senhor, viver uma norma rígida, render menos no trabalho por passar o dia com fome.
                Chego a pensar que a liberdade é realmente tinhosa: eu ainda não consegui enxergar nenhuma por aqui. Aliás, tenho visto muito pouca por aí também, para além destas fronteiras. Talvez não tenha tido tanta sorte, e me resta buscá-la em minhas ideias. Sorte mesmo é a do Wolo, por ter nascido num país livre: daqui de casa ele vai para o seu postinho de combustível, onde a gasolina é vendida em vidros de maionese e dá a ele 200 LD a cada dois dias (cerca de 3 dólares); em mais uns 20 minutos a energia volta e ele vai acompanhar pelo rádio na ONU as comemorações lá da capital; e ainda ofereceremos um peixinho pra comemorarem a data num jantar especial. Quem sabe a liberdade não está nisso, no gesto mínimo, na nossa atitude frente à vida? Feliz 165o aniversário de independência, Libéria.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Panorama Histórico do Conflito

          A República da Libéria é uma República Presidencialista fundada entre os anos 1821 e 1822 para acolher os escravos recém libertos dos Estados Unidos da América. Juntamente com a Etiópia, são os dois únicos países da África que não foram colônias durante o neocolonialismo europeu.
          Embora tenha enfrentado dificuldades econômicas e com a aceitação dos povos autóctones, conduziu sua história com regularidade até 1980, quando o presidente Tolbert é deposto e executado pelo guerrilheiro Samuel Doe. Doe assume o poder e inaugura um período de instabilidade e violentas guerras civis. No final do ano de 1989, Samuel Doe foi deposto em um novo golpe, assumindo Charles Taylor, que segue no poder até agosto de 2003, quando segue para o exílio na Nigéria. Durante esse período, há conflitos entre diversos grupo guerrilheiros, como a NPFL (Frente Nacional Patriótica da Libéria). Nesse momento, o país passou a ser tratado como um pária mundial, utilizando seus "Diamantes de Sangue" para financiar a guerrilha no país vizinho, a Serra Leoa. Com a renúncia de Taylor, em 2003, os diversos atores nacionais assinam um tratado de paz dando fim a mais de 20 anos de instabilidade, que deixaram o país sem energia, praticamente destruindo toda a sua infra-estrutura.
          Em 2005, acontecem eleições diretas e democráticas, acompanhadas com atenção pelo mundo inteiro, que elegeram a Presidente Elen Johnson Sirleaf, a primeira mulher chefe de Estado no continente africano. Formada em Harvard, já tinha sido Ministra das Finanças do país na década de 70. Recentemente, em 2011, foi reeleita para um novo mandato e para dar continuidade ao desafio de reerguer a infra-estrutra do país. Em 2011 também, seu trabalho foi reconhecido com o Prêmio Nobel da Paz.
          Para apoiar o processo de pacificação do país, a partir das rápidas mudanças de 2003, o Conselho de Segurança da ONU autorizou a criação de uma missão de paz multidimensional, a United Nations Mission in Liberia que conta com o apoio de diversos países, inclusive o Brasil.


Maiores detalhes no Almanaque do FBI e na Wikipedia