quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Ramadã acaba em festa... mas muito cuidado ao comer!

Esta semana acabou o Ramadã. Na verdade acabou antes de ontem, sábado. Ramadã é o mês em que os muçulmanos se dedicam ao jejum e  intensificam as orações. Para quem não sabe, os muçulmano, todos os dias do ano, cumprem 5 orações diárias, voltados para Meca e de preferência sobre seu tapetinho, uma vez que em algumas orações eles devem se ajoelhar e tocar a cabeça no chão. Mas o fato é que durante o Ramadã rezam ainda mais. Não raro durante o dia, nessa época, é comum encontrá-los com uma espécie de terço na mão, ou mesmo contadores digitais ou analógicos, firmes, numa espécie do que seria uma ladainha para os católicos. Aliás, aos desavisados, nem existe tanta diferença assim entre nós e os muçulmanos. Mas uma dia falo sobre isso...
Bem, essa parte da oração é razoavelmente simples. Ou nem tanto, porque para se cumprir as cinco orações principais do dia é necessário uma espécie de purificação da cabeça, das mãos e dos pés, realizada com água, que deve seguir uma determinada sequência (três vezes cada ponto, da direita para a esquerda). Mas isso eles estão acostumados: no Ramadã, o que complica, na prática, é o tal do jejum. E não é jejum de substituir carne por peixe só na sexta-feira santa. Daí tem gente que pede MacFish com batata grande e sandae de chocolate e acha que está cumprindo o protocolo! É jejum mesmo: eles não podem comer ou beber nada durante a luz do sol. E os caras são detalhistas: a artilharia do islã, por exemplo, deve ser uma das mais precisas do mundo! Aliás, Islã é o conjunto dos povos de civilização islâmica; islamismo é a religião criada pelo profeta Maomé no final dos anos 600 depois de Cristo; e muçulmano, ou islamita, é o indivíduo que pratica a religião. Outra coisa: por favor gente, muçulmano e árabe não são a mesma coisa! Pra ser árabe tem que falar árabe e estar num país da Liga Árabe, a maior parte do oriente médio, onde nasceu a religião islâmica. Só que os árabes representam hoje apenas a 18% dos fiéis. Outros 30% estão no subcontinente indiano, principalmente no Paquistão e em Bangladesh. A África é a casa de outros 20% e a Ásia 17%, sendo que a maior comunidade islâmica do mundo está na Indonésia.


Voltando ao jejum: não pode fumar ou sequer beber água durante o dia! Me dei conta disso quando voltava de uma patrulha na fronteira com meu amigo Adamou, de Níger, ambos de colete a prova de balas, e me deu uma vontade enorme de beber água... Aí olhei pra ele com seu contador de orações na mão e resolvi confirmar: "líquidos, cigarro, sexo, nada!!" Afff... Na hora exata do pôr do sol, fazem uma oração especial que se chama Iftar, onde se refastelam num laudo buffet. No dia seguinte, cinco e alguma coisa da manhã, na hora exata do alvorecer, logo após tomarem café da manhã: mão na cabeça! Agora é rezar e esperar pela noite mais uma vez! É lógico que há perda de produtividade, muitos tentam dormir horas a fio, mas... Temos que ter uma espécie de tolerância cultural. Colher de chá mesmo só para crianças, grávidas, idosos e doentes, que ficam dispensados do jejum. Se você viajar ou tiver algum problema, pode até suspender o jejum por alguns dias, mas tem que pagar com juros no final!!
Mas ontem teve um jantar aqui na Companhia do Batalhão Nigeriano pra marcar o final do Ramadã. Como é um tempo de recolhimento, como a Quaresma, no final as pessoas festejam, visitam uns aos outros, numa festa chamada Eid El Fitr, cuja tradução tem alguma coisa a ver com felicidade. Bem, a Nigéria é um exemplo de maioria muçulmana na África (aliás, tem até problemas com extremistas). Portanto, primeira moral da história: muitos africanos são muçulmanos! Pra ser mais preciso, boa parte do oeste africano e o norte da áfrica subsaariana faz parte do Islã. Países como Sudão, Nigéria, Mali, Níger, Senegal, Gâmbia, Guiné e Serra Leoa variam entre 50 a 70 por cento de muçulmanos. Já no norte da África, na chamada áfrica mediterrânea, esse número chega a 90% (é o chamado Magreb, do árabe sol poente). No jantar, sentei ao lado do subcomandante, aí vieram as homenagens, sempre destacando os “ilustres observadores militares presentes”. Tempo para dançar! Na África, geralmente a festa sempre tem pouca luz, de preferência algumas luzes coloridas, e muito, mas muita música. Aí chegou a hora do jantar: malandro, vim de mansinho, e coloquei bastante arroz e salada. Ahmed, o Jordaniano, até sabia, mas sofreu com a sua porção de carne. Pimenta, muita pimenta! Eu, que me achei safo, pimba: na salada até que não, mas até no arroz tinha pimenta! Aí era aguentar... E não dava para fazer desfeita sentado ao lado do anfitrião. A costa ocidental da África, ao longo do Golfo da Guiné, aquela curva que se encaixaria ao Brasil, também é conhecida como Costa da Pimenta. Enfim, segunda moral da história: ao viajar por aí, nunca sente do lado do anfitrião! Portanto, muito cuidado com a comida por aqui... Afinal de contas, roupas, mesquitas e hábitos podem até lembrar as arábias, de alguma forma, mas isso aqui continua sendo África! Ou vocês acham que foram os baianos que inventaram a pimenta? ;-)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

'Small Small', Mensalão e as Olimpíadas


Queria pensar um pouco com vocês sobre 'corrupção'. Parece que a grande noticia por aí agora é o julgamento no Supremo do tal mensalão. Tenho pouquíssima informação porque não tenho TV e mal consigo ver as manchetes nos sites nacionais. O Facebook muitas vezes não carrega as fotos, nem posso ver as charges jocosas que devem estar rolando. Me resta apenas os comentários dos meus amigos mais articulados... E ainda bem que os tenho. Mas o que admirei agora foi que o dicionário do computador aceitou o suposto neologismo “mensalão” como correto. Fiquei embasbacado. Como nos acostumamos com a corrupção e a integramos aos nossos dicionários, às nossas vidas...
Estou num dos países que dizem ser um dos mais corruptos do mundo. Aqui tem um tal de “small small” (smóu smóu) que é uma maneira peculiar de se dizer “um pouco”, “pequena quantidade”. Gramaticalmente imprópria, a expressão é usada pra tudo. “Quer mais café? Uhmm... Small Small”. “Dá pra chegar mais pra frente, Small Small?”. Nessa de interagir, não tem como a gente deixar de incorporar a expressão ao dia a dia, nem que seja em tom de brincadeira. O problema é que eles também usam essa expressão para se referir a um pouco de dinheiro, um incentivo aqui, uma ajuda acolá. No com português das ruas poderíamos também traduzir a expressão como algo para o “leitinho das crianças”. É o famoso: “pois é chefe, a situação do senhor tá complicada, que nem lá em casa... Quem sabe com uma ajuda pro leitinho das crianças a gente num consegue ver se simplifica as coisas pro senhor?”. Só que aqui não precisa de muito jeitinho pra falar.
Passamos o dia chamando o eletricista que estava sempre ocupado. Pontualmente no final do expediente ele chega pra você e diz: “chefe, eu tô aqui, mas pra não deixar os senhores no escuro até amanhã, preciso de um ‘Small Small’”.  Ninguém usa capacete, mas o policial para a moto do garoto e diz: o documento está com problema. O motociclista já sabe, nem raciocina, “small small” e assim vai dividindo os trocados que ganha nas corridas de moto-taxi. Aliás, aqui todo motociclista também é moto-taxista e moto parece a van do subúrbio carioca: capacidade de passageiros sempre excedida e param em qualquer lugar. Em Harper, na páscoa, vi um bispo liberiano pregar contra a corrupção, que não era possível viajar 16 horas pra Monróvia em estrada de terra, distribuindo dinheiro em cada posto de checagem. Para ele, isso está atrapalhando o país a progredir. Gostei demais do jovem bispo... responsável, corajoso. Falando em autoridade, se o “achacamento” dos moto-taxistas liberianos fosse ao Supremo, eu teria um medo danado que algum ministro entendesse de uma maneira contrária a do religioso e ainda gastasse uma 200 páginas pra fundamentar: a contribuição voluntária do cidadão fazia parte do esforço conjunto da sociedade para suplantar os óbices logísticos que fazem os policiais não possuírem algemas, terem uma única viatura em todo o estado e em alguns lugares sequer disporem de uniforme pra usar.
Coitada da polícia, sempre sujeita a esses exemplos... Mas aqui esses exemplos saltam por toda parte. Uma brasileira que mora em Monróvia me disse que teve que ir ao serviço público liberiano e o funcionário pediu um “small small” pra tirar cópia do documento que fazia parte de seu processo. Para lideranças locais participarem de reuniões de coordenação com as diversas NGOs que ajudam o pais, as tais autoridades esperam receber um tal “per diem”. Caso contrário, alguns reclamam seriamente, outros sequer aparecem. Pois é, o pior é que olho pra esses exemplos e  lembro dos jornais daí – não quero parecer injusto ou alarmista – mas se Caetano uma vez cantou que o Haiti é aí, fiquei com medo da Libéria também mudar de continente, pelo menos nas letras do famoso setentão...
Ah, mas também ouvi boatos de uma tal Olimpíadas... Aí pensei: Rússia, Canadá, China e Estados Unidos são os únicos países maiores que o Brasil em extensão. Se fosse competição, uns porque realmente não se admite, outros porque nunca se saberá ao certo, a medalha na modalidade corrupção, pelo menos na categoria “maior país corrupto do mundo”, seria realmente do Brasil. A Libéria, a pesar do esforço, de também amar o futebol e de dizer lutar contra a corrupção – qualquer semelhança não sei se é mera coincidência ou não – precisa mesmo se conformar com o resultado atual e continuar treinando, esperando para a próxima Olimpíada. A má notícia para eles é que estaremos jogando em casa. Se eles continuarem assim, só nessa de pouquinho pouquinho, não me resta dúvida: “nunca serão!” A Libéria que me desculpe, não quero dar uma de Galvão, mas pro Rio 2016, eu já tenho meu favorito: é o país do mensalão!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

26 de Julho: Dia da Independência da Libéria

Hoje é o dia da Independência da Libéria, que remonta ao dia em que se desligaram da American Colonization Society. Difícil não pensar no que realmente significam essas palavras. E tentar pensar fora do clichê de um tal monstro imperialista, que me parece bastante anacrônico numa época de tanta interdependência. Posso me arriscar a ser lacônico, pela falta de espaço, mas podemos pensar em interdependência desde quando se começa a fazer negócio nos primeiros burgos que começaram a decretar o final da idade média. Mais ainda quando se passa a produzir em escala industrial, o que encorajou vários imperadores a retalharem o continente africano. Mas hoje é o dia da independência da Libéria e o Wolo, nosso segurança, amanheceu o dia com o rádio ligado. E ontem perguntaram se faríamos alguma coisa para eles nessa data. Logo nos comprometemos a organizar uns peixes e alguns refrigerantes para todos eles: Wolo, Silvester, Jeah, Agoustin e Mama Alice, que cuida da nossa roupa.
A Libéria tem como máxima ser “the unique in Africa”. O que se pode traduzir como a “única na África”, mas num sentido de exclusividade, peculiaridade. Segundo o discurso repisado por eles, já nasceram livres. É o Lar da Liberdade, diz seu hino. Juntamente com a Etiópica, foram os únicos dois países do continente que não foram formalmente invadidos pelo tal neocolonialismo. Sei lá, talvez porque já falassem uma língua ocidental; ou talvez porque sua metrópole seja a rainha do soft power, cujos controles podem muito bem atravessar o Atlântico. O fato é que ainda hoje é mais fácil conseguir um visto para os Estados Unidos sendo Liberiano do que de qualquer outra nação Africana. Uma verdade? É que o país no qual se tem que ser liberiano nato, portanto negro, para se adquirir qualquer imóvel, surgiu mesmo foi do medo dos brancos. O desconforto de vê-los caminhando livres nas ruas da autoproclamada Terra da Liberdade, motivou o estratagema de mandá-los de volta sob uma justificativa nobre. Enquanto isso, agora mesmo, cortaram o gerador por uma hora e o rádio do Wolo acaba de fazer silêncio.
Hoje passaremos o dia patrulhando por aí, acompanhando as comemorações. Durante o dia é bem mais tranquilo: tem luz, podemos ver as pessoas atravessando as ruas de qualquer jeito, as crianças correndo atrás de suas bolas improvisadas. Meu amigo muçulmano me disse ontem que acompanharemos uma missa especial às 10h. É que ele já tinha me perguntado se pegaria mal pra mim se ele fosse comigo numa missa. Falei que não teria problema, que qualquer missa é pública – e ele arregalou os olhos admirado. Liberdade é assim mesmo:  arregalar de olho, frio na barriga. Liberdade pressupõe tomar suas próprias decisões, às vezes andar sozinho, tentar novos caminhos, fitar novos horizontes. E isso tudo exige um monte de coragem e ainda assim pode não dar certo. Ainda mais porque detestamos errar e não suportamos ser culpados. Mais fácil é ter senhor, viver uma norma rígida, render menos no trabalho por passar o dia com fome.
                Chego a pensar que a liberdade é realmente tinhosa: eu ainda não consegui enxergar nenhuma por aqui. Aliás, tenho visto muito pouca por aí também, para além destas fronteiras. Talvez não tenha tido tanta sorte, e me resta buscá-la em minhas ideias. Sorte mesmo é a do Wolo, por ter nascido num país livre: daqui de casa ele vai para o seu postinho de combustível, onde a gasolina é vendida em vidros de maionese e dá a ele 200 LD a cada dois dias (cerca de 3 dólares); em mais uns 20 minutos a energia volta e ele vai acompanhar pelo rádio na ONU as comemorações lá da capital; e ainda ofereceremos um peixinho pra comemorarem a data num jantar especial. Quem sabe a liberdade não está nisso, no gesto mínimo, na nossa atitude frente à vida? Feliz 165o aniversário de independência, Libéria.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Gonzagão faz 100 anos e eu continuo no Banho de Caneca


Lembram do chavão: “olhos e ouvidos da ONU”? Pois bem, pra gente cumprir esse objetivo, seguimos por aí, às vezes voando, mas na maior parte das vezes dirigindo nossas 4x4 por essas estradas e trilhas, atualmente enlameadas... Só que os japoneses são de lascar: querem que o troço funcione, que não quebre, aí se sentem desobrigados de fornecerem certas “sofisticações”. Nossas Nissan Patrol são novas, mas só têm rádio e fita K-7, acreditam?? Algum de vocês ainda tem alguma fita pra me emprestar?? Mas tem que enviar junto uma caneta 'Bic' pra rebobinar sem gastar a pilha do walk-man (é o novo!)... Desculpem os mais novos, peçam aos mais velhos para explicar... Não pude resistir a um momento nostálgico. Bem, mas hoje vivemos tempos chineses... E eles inventaram umas maravilhas a preços módicos que se conectam ao isqueiro do veículo e transmitem por rádio-frequência nossos MP3 armazenados em pendrives e cartões de memória para o som do carro usando uma estação de rádio qualquer J (mais novos, agora é a vez de vocês! Vão a forra e dêem um baile nos velhacos!).
Pois bem, tinha dirigido um dos carros no dia anterior e hoje resolvemos ir todos juntos para o almoço. Fui o último a entrar e não acreditei no que encontrei... Um russo ao volante, um dinamarquês de copiloto, eu e um cara de Bangladesh atrás... Só que do som vinha o velho Gonzagão, cheio de esperança dizendo: “já faz três noites que pro norte relampeia... e a Asa Branca ouvindo o ronco do trovão, já bateu asas e voltou pro meu sertão... ai ai eu vou me embora cuidar da plantação...". Nem preciso dizer que essa combinação pareceu surreal.
Resisto um pouco em comparar isto aqui com o sertão. E posso dizer bem dele, porque conheço; mais do que isso, porque vivi o sertão, graças a estratégia bem bolada da minha mãe. Por muitos anos ela nunca nos deu opção e todas as férias nos despachava para a casa dos avós, no interior. Bravo!, porque isso me garantiu, além de amigos queridos, uma referência preciosa... Além do mais, como me divertia com meus amigos Vitor e Lígia uma vez: na nossa geração, todos temos  “um interior”. Aliás, pra mim, a pergunta “qual o seu interior?“ faz todo o sentido... Bem, depois penso mais sobre isso, mas uma coisa é fato: meu banho de caneca aqui é uma referência muito clara a esse “meu interior”.
Pra quem não sabe, não tem água corrente por aqui, o que gera uma série de deduzidas... Barba na caneca, o que diminui a vida útil da lâmina de barbear, que também não tem por aqui. Nada de banho quente, embora minha avó fervesse uma chaleira d’água pra juntar com o balde da cacimba (muito empenho, logo não faço, lógico). Descarga no balde – apresentei ao norueguês o banheiro que tinha um balde do lado do aparelho sanitário e ele me perguntou: “como se dá descarga?” – pensei, pobre citadino... Mas, de tudo isso, o mais romântico é certamente o tal banho de caneca que, graças à minha referência, não é lá um bicho de outro mundo.
 A primeira vez que cheguei no banheiro, fiquei rindo sozinho encarando aquela montoeira de baldes de várias cores com umas canequinhas de tamanhos e formas variadas ao redor. Depois de umas canecadas, tinha um resto d’água no balde que entornei na cabeça, como se estivesse debaixo de uma bica generosa, o que me deu uma saudade gostosa da infância. Só que hoje tenho sabonete líquido – que também não vende por aqui – e descobri uma canequinha providencial: é uma espécie de chaleira de plástico, meio grandinha, que tem um bico. Ora, com um pouco de treinamento, você consegue passá-la de uma mão para a outra, trocando também a mão do enxágue, mantendo mais ou menos constante o fluxo d’água. Um luxo. Ora, ao invés dos grandes chuveiros, a Accord Hotels deveria treinar as pessoas a tomar banho... Em tempos de Rio+20 e consciência ambiental, seria uma economia e tanto de recursos hídricos!
                   Nesse centenário de Luiz Gonzaga me sinto ainda mais perto dele. Nascido no Ceará, entrou nas filas do Exército em Fortaleza e depois foi transferido e morou em Juiz de Fora, igualzinho a mim. Nessa pobreza sem par, uma estação chuvosa de precipitações diárias é uma verdadeira dádiva e escutar o velho Lula falando da Asa Branca que volta pro sertão na esperança de plantar me emociona... Justamente porque me parece ser a esperança a única saída possível. Aliás, me sinto um felizardo, porque de onde eu vim, desse “meu interior”, comecei foi na bacia, quando eu era pequeno (pequeno o suficiente pra fazer dela uma Jacuzzi). Lembro direitinho do barulho do fundo metálico no chão de cimento batido, dando uma leve agonia... Ora, comecei na bacia, passei pela cuia, caneco e hoje estou na chaleirinha de plástico... É uma melhora considerável. Afinal de contas, quando se tem esperança, em tempos de privação, pra quem não tem nada, metade é o dobro! ;-)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Wolo, um leitor assíduo.

Mosquiteiro: segundo Fábio, Instagram Liberiano
A ONU nos dá direito a um reembolso para contratarmos segurança e para o combustível dos geradores de eletricidade. Felizmente moramos tão perto do Quartel General aqui de Harper que conseguimos filar a eletricidade do escritório, nos sobra apenas contratar nossa pópria segurança. Na prática, são 4 funcionários que se revezam dia e noite, mais “Mama” Alice que cuida da nossa roupa. E Wolo é o chefe de todos eles.
Wolo é um homem de pouco mais de  40 anos, estrábico, esguio e a quem faltam a maioria dos dentes. Por essa razão, talvez , fala o mais puro liberian english, um mistério ainda parcialmente decifrado por todos nós. Por qualquer motivo, dificilmente nobre, normalmente ligado a tragédias familiares, fala um pouco de francês. Ora, a Costa do Marfim, cuja situação é mais instável do que a nossa, fica a poucos quilômetros daqui e há refugiados de ambos os lados...
Confio muito pouco nos dados oficiais deste país, mas segundo consta a Libéria é majoritariamente cristã, coisa de 80%. Tudo bem, se Salvador tem um pé na África, aqui, obviamente, os dois já nasceram no continente. Só que o que se chama aqui de práticas e leis “tradicionais” por algum motivo são mais difusas, mais difíceis de se ver do que na Bahia, acreditam? Bem, mas o fato é que quando não está fazendo alguma coisa na casa, Wolo está sempre por aí, em algum parapeito, com a Bíblia no colo. Ora, sempre achei isso legal. Em meio a escombros e despojos de guerra, qualquer religião, mais do que qualquer promessa metafísica, fala de conciliação, perdão, esperança. E seja lá qual seja, me parece ter o poder de amainar o presente e quem sabe fortalecer a mentalidade das pessoas e ainda, em alguns casos, inspira uma preocupação social e inclusiva. Muitas vezes a privação nos momentos de crise nos faz egocêntricos, intolerantes, e nos obriga a permanecer na base da pirâmide de Maslow, lutando tão e simplesmente pela tal autopreservação. Ali, os valores elaborados do que chamamos de civilização passam longe... É preciso começar tudo de novo...  
Há quase 10 anos do fim da guerra, numa belo fim de tarde de sol ameno, em plena estação chuvosa, cheguei em casa e lá estava Wolo, lendo sobre o parapeito da escada que dá para o segundo piso. Me sentia feliz, inspirado, resolvi indagá-lo: “o que você tá lendo de bom aí Wolo?”. Ele me respondeu: “o capítulo 16 do livro de Jó”. Eis que eu mesmo assumi a leitura e a fiz em voz alta. Era um relato daquele Deus impiedoso do antigo testamento. Jó sofria horrores, no meio dos diálogos entre Deus e o Inimigo. Em minha soberba desenvolvida e ilustrada, tinha em mente que qualquer dia pregaria àquele homem algum entendimento mais sofisticado. Mas sobre aquele relato, subitamente não me veio nada. Tentei ganhar um tempo, falando o óbvio, mas ele não me deixou pestanejar e tomou a iniciativa, perguntando-me o que era aquilo. Sem esperar minha resposta começou a me pregar com vigor e eloquência. Os olhos se arregalaram enquanto o rosto tremia levemente. Muitos veriam ali os sinais da Graça e do Espírito. Dizia que Jó sofrera às expensas do Diabo toda sorte de privação e de maus tratos, mas que Deus o dissera que sobre a Vida, que é o Dom Maior, nada poderia fazer.
A partir daí, conversamos sobre esse mundo ser o do Diabo. Lembrei-o das provações de Cristo no deserto e seus diálogos com o “dito cujo”. Ele me disse, “exatamente”! Me falou alguma coisa sobre o juízo final como consequência da nossa vida e das nossas escolhas. E ainda me disse que fazer boas escolhas hoje, praticar a 'Palavra' era o verdadeiro desafio. Sorri. A mais pura verdade, universal, e o desafio era igual, tanto para mim quanto para aquele homem simples. Tentei apenas dizer que todos esses embates acontecem mesmo é dentro da gente. Que cada um de nós carrega o céu e também o inferno; que a cruz significa exatamente que aquilo que está em cima é igual ao que está embaixo ou ao lado, e que vivemos perigosamente nessa confluência.
                   Deixei-o com um incentivo simples, “é isso aí Wolo, continue lendo”. Mas o que queria mesmo era ficar sozinho para pensar sobre tudo aquilo. Quanto mais estudo e conheço, mais me concentro em buscar a humildade que me permita seguir adiante, conservando-me sensível ao mundo, às pessoas e às coisas que me cercam. Mas o fato é que erramos, cedemos às seduções das serpentes, às provações em nosso próprio deserto pessoal; e como Paulo, incorremos no mal que não queremos. Por isso todo esforço é para me conservar humilde, pois a Verdade não tem cara de gente, não tem jeito de doutor, não usa barba branca e nem óculos de grife. A Verdade pode nem sequer ver direito, ser pobre e não ter dente... Como nos disse Saramago, a cegueira é uma condição humana, uma condição contra a qual nos rebelamos. Vencedores e vencidos partilham o mesmo castelo e a luta, como a vida, parece não ter fim.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Várias formas de se dizer Bom Dia!!

Esse fim de semana estávamos Brasil (eu!), Dinamarca, Estados Unidos, Itália e Canadá conversando sobre esse negócio de cumprimentar pessoas e a dúvida, em certa altura, era se os homens franceses davam ou não beijinhos na bochecha quando se encontravam. Bem, disse que tinha estado lá recentemente e que realmente achava que não, maaassss... os argentinos... Por favor, nada contra nossos hermosos vizinhos, todos sabemos que essa tal rixa é só folclore, mas que os homens se beijam, eles se beijam... Assim como a gente, quando encontramos algumas "amigas" no bar, na porta da balada, num aniversário etc. Enfim, beijar a bochecha de uma cara que não é seu pai pode parecer meio estranho pra nós. Mas por favor, respeitemos a cultura do vizinho :-P
Bem, mas depois disso fiquei pensando... A maneira de nos cumprimentar é sim um de nossos traços culturais mais específicos e importantes, até porque usamos diariamente, até mesmo várias vezes durante o dia. Por exemplo, estive na França outro dia (ninguém é de ferro, tive que descansar um pouco...), onde ninguém se aproxima de você sem pedir licença ou desejar de cara um caloroso bom dia: Bonjour! No Brasil somos tão econômicos com essas coisas... Aliás, na França, a contato com o outro nunca está completo se não dissermos obrigado, tchau e realmente desejarmos um bom dia: Merci, Au revoir, bonne journée... Este último corresponde ao desejo de uma “boa jornada”, um "bom dia de trabalho", numa tradução bem forçada, mas enfim: é o desejo de que todo o resto do dia lhe seja realmente bom. À noitinha, há ainda o bonne soirée, que serve como “noitada”, mas que não tem nada a ver com festas e excessos. Italianos, aliás, têm os mesmos termos: Buona Giornata ou Buona Serata. E nós, como economizamos hein...
Por outro lado, nós temos essa mania de tocar nas pessoas por tudo e os homens a cultura do aperto de mão. Outro dia, referindo-se a um outro companheiro, um colega falou no escritório: “eu não sei pra quê esse negócio de apertar as mãos todos os dias... Nós trabalhamos juntos, nos vemos todos os dias, precisa ficar passando micróbio um para o outro diariamente?”. Na dúvida, particularmente, eu nunca tomo iniciativa, dou um bom dia geral e pronto...
Ao mesmo tempo, cumprimentar dentro do código de valores do outro pode ser um sinal de respeito e consideração. Por isso, costumo cumprimentar meus amigos muçulmanos da maneira deles, ou seja, em substituição ao Bom Dia ou ao Boa Tarde: Assalamu alaikum cuja resposta é Alaikum assalaam. É um significado bonito que eu acho merece ser replicado: “que a Paz de Deus esteja contigo”, e a resposta, “e sobre você a Paz Dele”. São termos árabes, mas que servem aos muçulmanos de todos os idiomas, até porque todos eles são estimulados a estudar árabe para ler o Corão na versão original.
              Na Libéria, evidentemente, haveria de ter suas peculiaridades... Portanto, para começar, eles adoram um Hello. Esse é o cumprimento básico e universal: “Oi”! Simples assim, mas de preferência bem simpático, o que normalmente motiva recebemos de volta um Hi ou Hello muito caloroso. Podemos ainda tentar um Ya Hello, que é um “Hello pra todos vocês". Outro dia tentei esse cumprimento simples quando fui bater papo com umas 200 crianças de uma escola e recebi um caloroso e uníssono HI!!! Umas belezinhas... O fato é que andamos por aí falando com as pessoas e é importante saber o código local. E depois do Hello, sempre que possível, vai vir um aperto de mão (eles gostam muito). Só que não é um aperto de mão comum. Depois do aperto de mão como conhecemos (fase normal, brasileira digamos), quando as mãos vão se separar, o dedo maior de ambos escorrega pela mão do outro até encontrar sua contraparte, é quando puxa-se a mão com força para produzir um estalo. Quanto maior o estalo, "melhor" o aperto de mão. Depois, pode-se ainda levar a mão até o meio do peito pra dizer que estamos sendo sinceros, o que funciona também para os muçulmanos de maneira geral. Portanto, quando me verem por aí nas fotos conversando com as pessoas, podem ter certeza que antes rolou um Hello caloroso e um aperto de mão que eu tenho tentando caprichar no estalado... Ah, e quanto ao meu colega dos micróbios? Bem, aprendemos que para quase tudo nessa vida se tem Mastercard... Para outras, muita paciência ou álcool gel ;-)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Meu problema sempre foi a "liga"

Vocês lembram daquela piadinha antiga onde o sujeito diz que o problema dele nunca é dinheiro, mas sim a “liga” para prendê-lo?! Pois é, depois de velho foi que eu fui entender. Primeiro, porque talvez nunca tenha tido dinheiro suficiente para precisar de uma liga ou elástico. Ou porque nossos economistas tenham sido mais rápidos no controle dos zeros na chamada “economia real”. Ou simplesmente porque num sistema bancário de referência mundial como o brasileiro, para a maioria das pessoas, liga é coisa do passado, como são as fitas k-7, os disquetes, os walk-mans e por aí vai...  Esse tipo de coisa a própria modernidade se encarrega de sepultar para sempre.
Pois bem, mais de 70% da economia do pais é dolarizada. Na capital, a maioria das atividades corriqueiras, comércio de melhor nível, serviços em geral, supermercados, entre outras coisas, são precificados em dólar americano (USD). Só que todos os trocos menores do que 1 USD são honrados na moeda local, o tal dólar liberiano. Não há moedas. Também pudera, a equivalência entre os dois gira em torno de 70 dólares liberianos por cada dólar americano. Isto é, enquanto no Brasil pagamos 1,7 ou 1,8 por um dólar, aqui temos que desembolsar cerca de 70 dólares liberianos pelo mesmo valor. Um exemplo para o Brasil, que faz campanha para tentar desencalhar as moedas, milhões de reais que dormem em porquinhos, vidrinhos e vasinhos por aí,  na casa do povo. Se não conseguirmos desvalorizar nosso poderoso Real, poderíamos criar o “Irreal”, ou mesmo homenagear nossa ex-metrópole reinaugurando o Escudo. Cédulas que se destinariam aos famosos "quebradinhos", aos trocos, às compras de banana a varejo ou de chicletes nas portas das baladas.
Pois bem, aqui nesse fim de mundo, próximo da fronteira, os pequeninos comércios estabelecem seus preços em Dólar Liberiano. São lojinhas de no máximo duas portas, cujas compras são do tipo: um pacote de açúcar, um caderno, uma caixa de fósforo e dois papéis higiênicos. O pãozinho do dia a dia, referência mais consagrada que o IGP-M, vale 20 dólares liberianos. Hoje paguei 140 por um bloquinho de anotação e una coca gelada que vale em torno de 70.
Para ter acesso a todas essas iguarias, recorri à figura do ambulante trocador de dinheiro, que fica nas calçadas, parecendo uma banquinha de “jogo do bicho”. Quer dizer, caso existisse jogo de asar no Brasil... Disse ao senhor que queria trocar 100 dólares americanos. Ele me retrucou: “mas o senhor quer trocar o dinheiro todo?” Respondi que sim, guardo em casa, e não precisaria ficar voltando lá toda hora. Pois que ele baixou a cabeça e se danou a contar nota. Soma final: 7.300,00 dólares liberianos, em notas de 100, 50 e 20. Uma beleza. Notem que o país não produz papel moeda e as cédulas, principalmente as menores, estão em situação deplorável. Mas o que me acalmou mesmo quando eu vi aquela montanha de dinheiro foi que ele puxou um saquinho repleto de soluções. Distribuiu as liguinhas nos montinhos de dinheiro e saí realizado, me sentindo muito rico. Por isso que eu digo, meu problema sempre foi a liga, só nunca tinha morado aqui antes. Maldita hora que saíram os zeros das nossas moedas, hoje seríamos ainda mais liberianos: barulhentos, loucos por futebol, só que cheios da grana.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

O idioma nas ruas e o papel do "language assistant"

O idioma oficial da Libéria é o inglês. Entretanto, na prática, como em outros países, existem outras línguas e dialetos em uso. Os limites dessas línguas e dialetos locais são, normalmente, os vigentes entre as diversas tribos que compõem os chamados “Liberianos Indígenas”. O inglês era falado pelos “Liberianos Americanos”. No início, representavam 5% da população, gozavam do amplo apoio estadunidense e monopolizaram a administração do país por mais de 100 anos, o suficiente para expandir traços da cultura assimilada para o restante do país.
Procuro não esquecer as aulas que tive, mesmo em priscas eras. Lembrei agorinha das aulas de história antiga do saudoso Prof. Amora (que tirando um “a” fica Amor, rsrs), na sétima série do CMF. Na Roma antiga, uma coisa era o Latim falado pelos mais cultos, outra coisa era o latim corrente, utilizado nas ruas. Pois bem, aqui sinto muito claramente essa diferença. No Brasil, além de não sofrermos a pressão interna de outros idiomas, o nível geral de alfabetização da população é certamente bem maior do que aqui, o que não nos permite perceber essas fronteiras.
Bem, aqui tive uma aula de história com um liberiano formado em sociologia. O sotaque marcava um pouco, mas era completamente inteligível. Outra vez fui a uma operadora de celular, dificílimo de entender a moça, que ainda tinha uns dentinhos pra fora e falava com a boca entre aberta (depois vim saber que a abertura dos dentes poderia ser a indicação de nobreza em determinadas tribos)... A coisa caminha realmente para uma corruptela do inglês, por isso, “God” vira “Gó”; “Because”, vira “Bicó” e aí por diante... Aos pouquinhos a gente vai acostumando o ouvido... Na capital e no comércio, a coisa ainda vai, mas quando estamos em patrulhas por esse interior de meu Deus, aí o bicho pega...

Para mitigar esses problemas, um grande aliado é certamente o chamado Language Assistant, ou Assistente Linguístico. Ele é um indivíduo local, capaz de se comunicar nos idiomas regionais e no nosso. Alem disso cumpre o papel de assessor cultural, tentando traduzir não apenas as falas, mas as idiossincrasias. Ao chegarmos no vilarejo é o primeiro a saltar do veículo e começar a perguntar pelo Town Chef  (Chefe da Cidade). Extrapola, portanto, o papel de um tradutor.

Bem, o fato é que o principal papel dos Military Observers (Milobs ou ainda UNMOs – United Nations Military Observers) é o de observar e reportar. Para tal, entender o que as pessoas falam e circunstanciar dentro das realidades locais é o primeiro passo. Se se vai aguçar o ouvido, perguntar várias vezes ou lançar mão de intérpretes ou Language Assistants, isso é um segundo problema... E, de onde eu venho, os primeiros problemas têm sempre prioridade sobre os segundos... A missão tem tem que continuar ;-)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Uma experiência de super-herói

Quando a aeronave pousou em Poe River Middle Town faltava muito pouco para as 11 horas da manhã. De onde estava, a direita, não percebi muita coisa, a não ser algumas casas enquanto o helicóptero se aproximava lento. Da escotilha aberta via um resto de grama e em seguida o adensamento da mata. A porta era do lado oposto e meu colega foi o primeiro a descer. Recém chegado, uma das primeiras missões. Não poderia imaginar o que aconteceria. Não acreditei. Estava todo o vilarejo, mulheres, crianças, jovens e adultos, contidos no limite do campo, talvez pelo medo ou pelo respeito àquela enorme geringonça alada. Quando nos viram, explodiam de emoção, mulheres gritavam, crianças corriam... surreal.
Logo se aproximaram os chefes do povoado de pouco mais de 1.000 pessoas, que na África invariavelmente são os homens, os mais velhos. Dissemos que queríamos conversar e fomos conduzidos para uma espécie de cajueiro gigante, de sombra farta... Surgiam cadeiras, uma mesa e até mesmo uma toalha para compor o ambiente do meeting. Nos convidaram para sentar, o chefe da vila ao centro. O mais letrado assume a palavra, se apresenta, apresenta as autoridades locais e externa a imensa alegria de receber-nos.
  Com o compromisso de responderem tão somente a verdade, percorremos nosso extenso questionário e pontuávamos as respostas para o relatório. Isso é a vida do Observador: olhos e ouvidos da ONU, observar e relatar. Para o vilarejo, o principal problema é o acesso. A estrada mais próxima fica a duas horas de caminhada. Estão construindo uma clínica e o cimento vem todo sobre a cabeça. “Somos muito fortes”, repetiam. Malária, diarreia e afecções diversas do trato respiratório são queixas certas (não esqueçamos que a África ainda luta contra a tuberculose). Perguntei se havia minas de qualquer natureza na região, responderam que não, que há mais de 10 anos não mexem com isso, que a esperança de riqueza tirava as crianças da sala de aula. A vila vive da agricultura de subsistência, do arroz, da caça, da pimenta... E a escola era outro problema: não tinham construção apropriada. Os cerca de 300 alunos disputavam lugar com os animais que à noite se abrigavam naquele telheiro sem paredes. E os “quadros-negros estão muito ruins”, me dizia o chefe. Antes de partirmos, ainda nos deram água de coco para agradecer-nos a visita.


Anotamos tudo, fotografamos e reportamos. É o nosso trabalho... Novato, só fui perceber lá pelo final da patrulha que helicóptero, escolta armada, população em polvorosa, tudo isso, no final das contas, era para mim e para meu colega, os ilustres observadores de paz da ONU... Só gostaria que voltasse para esse povo, quem sabe um dia, uma mínima parte do valor que aparentamos ter...

sábado, 7 de abril de 2012

Harper, destino final: a chegada


Com Silva Mendes e Amin, que tambem foi pra Zwedro
Dormi bem minha primeira noite. Sem roupa de cama, sem travesseiro, sem rede de mosquitos... Mas tinha o essencial: um cansaço muito grande, um colchão e um ventilador. Aconteceu que o cara lá no aeroporto não deixou embarcarmos tudo e prometeu mandar o resto no dia seguinte. Disse que tínhamos que escolher apenas o essencial. Nós tínhamos 5 volumes cada. 3 bagagens em si, mais um ventilador e um colchão. As bagagens não estavam preparadas contemplando uma situação dessas... Portanto, minhas primeiras duas escolhas foram fáceis: o ventilador e o colchão. Por último, apontei para a mala que eu lembrava ter colocado o material de higiene logo cedo.

Finalizada a questão da bagagem, aí vamos nós rumo ao bravo quadrimotor canadense: Dash-7. Aliás, a empresa era uma contratada da ONU; portanto, no meio do além, surgiram na porta do quadrimotor duas aeromoças de calças pretas e camisas bem brancas. Lógico que não havia serviço de bordo, mas ainda assim elas seguiam aqueles protocolos automatizados de apertar os cintos e apontar para a saída de emergência. O mais inusitado era, logo após tocarmos o solo em pistas de terra, elas despejarem o famoso “Sejam bem-vindos à Zwedro”, Greenvile ou Harper. Como assim, tão achando que tão na ponte aérea? Cada pernada não durava mais do que 45 minutos, seguidos de outros 30 a 45 no solo. E todos tinham que descer... Nota: realmente o Brasil está transformando seus aeroportos em Shoppings... Precisam ver a “estrutura aqui”.
Em Zwedro deixei meu bravo companheiro de turma, com quem dividi o tempo de preparação ano passado e com quem vinha sofrendo as aflições das esperas e das adaptações. Além disso, perdi a oportunidade de fazer aquele comentário em paralelo jocoso em português, falar sem esforço... A partir de agora, inglês todo tempo, no máximo um francês...
Aeronave na final em regra de voo visual, “Seja Bem-Vindo à Harper”! Lá estava meu Team Site Leader de Bangladesh me esperando. De posse do “essencial” que tinha escolhido, rumamos às 14h30min para a Companhia de Engenharia Paquistanesa para tentarmos almoçar. A cultura militar é igual em todo mundo mesmo... Lá estava um “cabo véio” da cozinha, que me disse que naquela hora só tinha feijão e arroz, mas que, se eu quisesse, ele poderia fritar um ovo. Não pensei duas vezes, até porque estava me clicando para o “essencial”. ;-)

O escritório fica a 3 minutos da casa. Fomos até lá para conhecer o restante do time. Em seguida, de volta à casa, me apresentaram o quarto. Pequeno, mas bom comparado com outros lugares por aí, inclusive com as acomodacoes do Silva Mendes. Não há água corrente, mas a energia bomba 24 horas por dia... Um outro verdadeiro luxo por aqui... No mais, espaço para a cama, uma escrivaninha pequenina e uma espécie de móvel que lembra um guarda-roupa sem porta. Nada mal. Só fica na parte de baixo da casa, uma espécie de subsolo, porque esta é a lei: os recém-chegados ficam com as piores condições. As pequenas “melhorias” acontecem paulatinamente, na medida em que formos ficando antigos no lugar.

Induction Training

Passamos umas 5 semanas na capital, o que não é normal, mas precisávamos passar pelo tal Induction Training, que é um treinamento obrigatório para quem chega na área da missão, antes de ser “deploiado” (deploy em inglês é o termo militar para ser enviado para seu posto em campanha, permitam-me o neologismo, mas é normal por aqui, rsrs...).
O treinamento transcorreu durante uma semana e pouco, com diversos temas e entidades... Se tiver tempo faço alguns comentários específicos. Mas os temas foram desde a organização da missão, na sua parte militar e civil, à condutas, procedimentos administrativos, temas sobre exploração e abuso sexual, igualdade de gêneros, Cruz Vermelha Internacional e por aí vai...
Deputy Force Comander - Gen da Nigeria
No final da semana, descobri que estava indo para Harper, na fronteira com a Costa do Marfim e o meu compatriota e amigo para Zwedro, um pouco mais para nordeste de Harper. Melhor ainda saber que há dois anos atrás meu afilhado de casamento, Clayton Pontes, esteve por aqui (estou escrevendo esse post depois, rsrs.. Aliás, Pontes, o “MovCom Guy” do campo de pouso daqui me pediu que lhe mandasse um abraço, e realmente lembrava o seu nome. É bom ver a consideração das pessoas, prova principalmente do seu bom trabalho e da maneira bacana como certamente tratava as pessoas). Considerando as opções que tínhamos, esses destinos foram muito bons...

No final do curso, como é normal: fotos, certificados, etc... Mais importante, liberdade de manobra para sermos postados em algum lugar e começarmos o trabalho que nos propusemos a fazer desde o início... Observar e reportar. 

Carnaval Latino: Balanço

Oi gente, desculpem a demora, mas as coiasas correram de repente por aqui... De qualquer forma, estava lhes devendo o balanço da festa...
A festa foi boa... Durante o dia, ajudamos a organizar as coisas, arrumar balões e até conseguimos uma vaguinha boa para a bandeira brasileira, mais no centro, bem ao lado da flâmula da ONU... À noite, ganhamos camisa da organização e recebemos um turno para controlar o bar, que era livre... cervejas e drinks... foi divertido ficar por lá... a gente acabava vendo e conversando com todo mundo que uma hora ou outra ia tomar alguma coisa... o grande desafio ficou por conta de entendemos os diversos sotaques nos pedindo alguma coisa... Gin com tônica, vodka pura, vodka ou rum com coca cola, com isso, com aquilo... Licor, vinho branco e tinto... Até mesmo umas sprites turbinadas pra certos costumes cuja culpa não consegue extrapolar os limites de umas latinhas minimamente batizadas...
Ah... sobre aquela rivalidade boba, rsrs, umas cervejinhas a mais e me chega um companheiro portenho que nunca tinha nos dirigido a palavra nos corredores, enfim nos abraça e diz: “poxa, temos que acabar com isso... assim, distantes  de casa, temos certeza que vocês também são latinos, como todos nós, embora falem português... é bacana ter vocês conosco”. Obrigado Freud por dizer-nos aquilo que ele tentava mais firmemente se convencer... Fora isso, tinha comida e bebida para todos. Salsa, rumba e congeneres direto. Às vezes ficava até demasiado típico... Perguntei ao responsável pela musica se teríamos algum repertório brasileiro, ele falou que não, que nenhum de nós tinha ido na reunião para contribuir com a musica. Bem, eu nem sabia de reunião. Mas pra quê brigar, não é mesmo?? Fiz só a seguinte pergunta: vai tocar "Ai se eu te pego"? Ele falou que sim, que estava nas 10 mais. Perguntei se ia tocar "Danca Kuduro", ele falou que também era uma das mais mais... Daí falei, então está bom para os Brasileiros rsrs... E evidentemente tocaram as tais musicas com retumbante sucesso...

Bem, no dia seguinte, como ninguém é de ferro, a famosa "patrulha latina" deu uma voltinha na praia pra relaxar um pouquinho do trabalho árduo da noite anterior... 



sábado, 24 de março de 2012

Carnaval Latino


É... Diplomacia tem seu preço e nem só de combate vive o homem. Em todo o FHQ (Force Headquarter), Base Logística e mais alguns observadores militares de folga na região de Monróvia, existem muitos latinos. Sem pensar em nenhum tipo de segregação, no meio de tantos outros países "diferentes": leste europeu, africanos e asiáticos, até mesmo os argentinos parecem irmãozinhos de nascença (brincadeirinha rsrs... Ops, quer dizer, nada contra, muito pelo contrário... rsrsrs). Por isso mesmo, há uma identificação natural entre a gente, até mesmo pelo idioma. O problema é que é tão bom descansar do inglês de vez em quando, que quando percebem que falamos alguma coisa de espanhol, ai mesmo é que disparam a falar como uma metralhadora giratória, sem nenhuma pena ou cerimônia... E segurem-se, porque ô povo pra falar rápido!!!
Esse sábado, por exemplo, o pessoal está organizando um Carnaval Latino na embaixada alemã... e o carnaval começa aí, rsrs... Assim que chegamos perguntaram se participaríamos. É o tipo da pergunta que não podemos dizer não. Numa missão como esta, estamos sempre fardados, carregando a bandeira no ombro. Por isso mesmo é impossível não sermos claramente ligados ao país que representamos... Por isso tudo seria impossível dizer que não iríamos participar da festa... Seria como se o Brasil não quisesse se alinhar com os demais países sul-americanos... Enfim... vai rolar a festa, (vai rolar!!) e nós somos "obrigados" a ir!! ;-)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Que gosto isso tem?!


Já disse isso algumas vezes e cada vez tenho mais certeza de que a grande experiência cultural se dá na oportunidade de experimentarmos coisas diferentes do que conhecemos. Não estou falando de grandes travessuras juvenis, de suas pretensas rebeldias e irresponsabilidades. Falo de pequenas experiências ligadas aos costumes e muitas vezes à culinária. Aliás, com a globalização, poucas coisas são realmente novas e estamos lá, nos refastelando com comida árabe em qualquer esquina; ou um povo brabo danado como o "siarence", se emperequetando todo pra comer comida japonesa no Soho porque é chique. Nada contra, muito pelo contrário. Mas o fato é que num caldeirão cultural muito grande como o que eu vivo, há sempre oportunidade para aprendermos coisas novas, até mesmo com ingredientes que esse tal cosmopolitanismo moderno já nos apresentou.
Semana passada, não bastasse ter minha primeira aula particular de sauna, com os inventores do troço, continuei minhas viagens gastronômicas. Calma, antes de começarem os comentários jocosos, há uma toalha que concede certa proteção ao indivíduo. :-) Interessante saber que cada sauna, desde os antigos tempos, é governada por certa entidade, ligada à mitologia nórdica etc. O troço é mais ou menos seco e a temperatura é regulada jogando água nas pedras da caldeira, o que aumenta a sensação relativa de calor pela umidade.
Bem, o fato é que depois tivemos sopa para jantar. Na verdade, duas sopas. Na primeira, notei de cara o quiabo, ilustre convidado, prato predileto de meu amigo Cid. Alguns pimentões que me deixaram concerned, pois tenho aprendido que "novo" e "apimentado" são coisas que muitas vezes fazem sentido juntas por aqui. Por sorte não era o caso, eram inofensivos pimentões. Ah, e não adianta perguntar, porque além da sensação relativa de "apimentado" ser muito diferente de um país para outro, vocês não imaginavam que eu soubesse como se falava quiabo em inglês, não é? Lógico que não. O que me diriam de pimenta isso, pimenta aquilo?!?! Aliás, ainda não sei nem bem diferenciar os conceitos de "spyce" e "hot".
Mas o melhor da festa nesse dia realmente não foi a pimenta. Simplesmente se usou tamarindo para temperar a sopa! Não deixou de ser salgada, mas ganhou um componente marcadamente azedo. Se era bom?! O pior que era. Estranho num primeiro momento, mas bem interessante. O meu amigo Odilo que me perdoe, mas harmonizou muito bem com o bom e velho Casillero Cabernet Reserva que nos acompanhava no momento.
O prato principal era uma sopa de carne comum, com bastante vegetais, ervilhas, milho, alface. Comum, mas muito boa. Meio como sobremesa, também tivemos suco. Aliás, já era de se esperar, as frutas aqui são muito boas. Mas nunca tinha experimentado essa mistura específica. Simplesmente era suco de abacaxi com gengibre! Nunca morri de amores por abacaxi, mas os daqui são extremamente doces e suculentos, em nada se aproximam da citricidade dos daí. Com o toque do gengibre ficou simplesmente espetacular! E me disseram que as frutas no interior são ainda melhores... Por isso, a moral da história talvez seja justamente essa: mesmo que você ache que não gosta de alguma coisa por aqui, prove! Os sabores podem ser bem diferentes. Afinal de contas, estamos na África e mal-gosto e preconceito podem simplesmente residir do outro lado do Atlântico... Por que não?? ;-)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Gosto Apurado


Definitivamente, esta missão está me deixando com o gosto apurado. A cidade está se reconstruindo e há sim alguns mercados, como uma cidade do interior brasileiro. Algumas vendas e um supermercado maior. Nos balcões uma miscelânea: achocolatado canadense, coca-cola argelina, leite inglês, água Libanesa. Aliás, só uma coisa não varia, os libaneses são os donos de todos esses entrepostos.
Estamos num bom condomínio, só que a vários quilômetros do centro. Sem carro não dá. E não temos um. Aliás, todos os carros são de todos, mas como nosso posto definitivo não será aqui, não conseguimos entrar em nenhum grupo que divida irmamente qualquer um deles. Parecemos adolescentes, ao redor do povo da casa, a procura de uma carona pra qualquer lugar ou mesmo pra ver se sobra um carro pra nós. Resultado, no máximo conseguimos uma carona, sem direito a escolher muita coisa.
Bem, o fato é que semana passada pegamos uma carona para o melhor mercado da cidade. As mesmas prateleiras cosmopolitas, até biscoitos brasileiros encontramos... Ah, e muito congelado da Sadia. O fato é que com essa limitação não dá pra ousar muito na cozinha. Compramos umas coisinhas e umas salsichas que achamos legais. Dito e feito. Conseguimos perceber uma enorme diferença de sabor e qualidade para umas outras em conserva que tínhamos comprado. Por um instante, me senti como um enólogo experiente, calculando com precisão a safra de um tipo especifico de uva cujo vinho acabara de provar. Se por um lado as salsichas não são tão chiques quanto os vinhos, nessa situação me parece mais vantagem conhecê-las melhor do que aos vinhos. Afinal de contas, nessa confusão de marcas e produtos, acho difícil que eu tente algo muito diferente dos gatos pretos e concha y toros que tenho visto por aí.

terça-feira, 13 de março de 2012

Entendimento Cultural


Uma das grandes experiências por aqui é mesmo o contato com a diversidade cultural. E voltaremos a isso algumas vezes, claro, sempre que for possível dividir com vocês. Outro dia, por exemplo, encontramos nosso amigo Montenegrino, um cara realmente muito bacana, muito correto, com quem começamos um papo muito interessante.
Num ambiente internacional, estamos sempre lutando contra os estereótipos que carregamos. Banana, macaco, arco e flecha, espanhois são nossos tradicionais "inimigos". Mas será que também não temos estereótipos na direção das outras pessoas ou nações?! Conversar com alguém dos Balcãs, por exemplo, é sempre uma excelente oportunidade de lançar luzes sobre uma história intricada, cheia de nuanças. O principal problema, segundo ele mesmo, é que "construíram uma casa no meio da estrada". Todo mundo quer passar, daí o bicho pega muitas vezes. E como pega.
No meio da rota da seda, não avaliamos que impediram praticamente sozinhos o avanço otomano para a Europa, o que ampliaria ainda mais a influência árabe no velho continente e consequentemente em nós mesmos. Ignoramos que a maioria da região fala o idioma sérvio e que tal idioma pode usar tanto o alfabeto latino como cirílico, que é o do Russo. Aliás, que cada letra admite apenas um som, o que representa uma vantagem e tanto para se aprender: pronuncia-se rigorosamente o que se escreve.
Observador militar experimentado, está terminando sua segunda missão de um ano na Libéria, tendo convivido com muita gente, muitas nacionalidades. Dividindo conosco seus "causos", disse que certa feita um colega recém chegado, após alguns dias sem lhe trocar uma palavra, virou pra ele e disse: "é... você parece normal..." Sem entender, perguntou o porque e o tal colega seguiu dizendo que achava que todos as pessoas daquela região fossem "assassinos", é mole? Em outra oportunidade, um policial americano começou a andar com ele e com os colegas sérvios, faziam churrascos etc... Quando muito tempo depois entraram no assunto de guerra e o policial teve que descobrir estupefato que os EUA haviam bombardeado a região com bombas de ogivas "sujas" de urânio e plutônio... O pior é que esse colega Montenegrino, pessoalmente, dedicou-se à descontaminação das áreas... Incrédulo, o tal policial americano teve que ir à internet para se certificar e a partir daí passou a se desculpar a todo instante, querendo de alguma forma reparar os atos de seu país... E me parece que fora do nosso país, em extrema minoria, nos tornamos ainda mais reféns de seus atos e decisões. Somos levados a justificar e expiar seus mandos e desmandos... Estranha sensação...
Quantos aos nossos amigos dos Balcãs, nós não imaginamos que eles professem a fé católica ortodoxa e que no início da guerra contra a Croácia, que marcou o final da ex-Iuguslávia a partir de 1991, os pais desse homem que tem a minha idade, ganhavam 2000 em moeda local e que durante a guerra chegaram a ganhar apenas 5. Aliás, nos dispomos no máximo a imaginar e imaginar... erigir pré-conceitos... mas poucas vezes somos capazes de olhar para nós mesmos e buscar luzes para as trevas às quais nós mesmos sentenciamos... Poucas vezes temos coragem de sequer ensaiar o mote descrito na parede "campus principal" da universidade do país que viemos ajudar: "Lux in Tenebris".

quinta-feira, 8 de março de 2012

Carteira de Motorista


Se tem uma coisa que é obrigatória numa missão da ONU, é a tal carteira de motorista. Não que todo mundo tenha a mesma experiência... Eu tenho 18 anos de carteira e dirijo muito mesmo, viajo bastante, o que me dá certa experiência. Mas há países em que não há uma cultura automobilística muito forte ou acaba sendo restrita a uma classe social. Há quem prefira bicicletas ou transportes públicos modernos, ou ainda tradicionais - lembrem que há muitos países sob o chapéu da ONU, mais do que jamais conheceremos. Há inclusive os próprios liberianos que aos poucos passam a ser reintegrados e muitas vezes empregados pela própria missão. E são os que se pronunciam dizendo ter apenas um ano de carteira.
Experientes ou não, o fato é que temos que ter a tal chancela da ONU para assumirmos a boleia das belas Nissan Patrol por aqui. Alguns Toyota, hillux, antigos 4Runners, Prado, mas a grande maioria Nissan. Aliás, começo a compreender melhor os americanos... A gente se acostuma tanto a ver a tal Patrol, que ao volante mais parece um trator, de tão forte e robusta, que as Hillux começam a parecer carro de brinquedo.
Primeiro uma instrução teórica, uma prova de conhecimentos básicos de trânsito e, em seguida, uma prática, composta por uma baliza simples e outra de ré a 90 graus, que aliás é o padrão para estacionar por aqui. Antes de dizerem que é bobagem, considerem o tamanho da tal Patrol, que é maior que a Xterra que as vezes vemos por aí. Além disso, há uma outra parte que é um treinamento de condução off-road, com parte teórica e prática numa areia de praia muito frouxa! Bem, mas nada muito difícil realmente. Passamos com folga e ainda ganhei um "Good Driver" do instrutor filipino.

terça-feira, 6 de março de 2012

Capital Monróvia, primeiras impressões


Chegamos ao aeroporto de Roberts por volta da 13h do dia 29 de fevereiro. De cara muitas aeronaves da ONU, um esquadrão muito grande dos gigantes helicópteros Antonov, russos, verdadeiros caminhões voadores, de tão fortes e rústicos. O letreiro pintado, ao invés dos tradicionais luminosos, junto com as propagandas institucionais incentivando a união do povo para a reconstrução do país, apontam o clima geral. Todos para a imigração. Foi a primeira vez na viagem que não encontramos fila exclusiva para o passaporte diplomático. Muita gente desfilando com o uniforme das Forças Armadas Liberianas, organizando filas e o trânsito das pessoas. Teto baixo de madeira, tudo tem pinta de instalação provisória mesmo. Em seguida, grata surpresa: nossas malas já giravam pela esteira em velocidade vertiginosa. Coitadas, sentiam nossa falta e eram o centro de nossa preocupação, já que a última vez que as havíamos visto fora em São Paulo, 2 dias atrás... O fato é que enquanto nos viramos para procurar um carrinho, já havia um rapaz, com ar oficial, um tipo de macacão e crachá habilmente acomodando nossas malas num carrinho. Solícito, muito solícito. Confiante, dava orientação, pedia que estivéssemos com os tickets de bagagem na mão, depois, empurrando o carrinho, perguntando quem seria nossa carona ou se precisávamos de taxi. Sem achar o major de primeira, nos levou até um espécie lanchonete na parte de fora. Aí se vai a primeira gorjeta em solo Liberiano.
Quase que instantaneamente se apresentou um outro cara, dizendo-se segurança da lanchonete, nos convidando para sentar. Dissemos que não, que precisávamos apenas encontrar nossa carona. Não seja por isso, disse, apanhou o carrinho e nos acompanhou até a parte da frente do aeroporto, aguardando conosco, tentando ajudar de alguma forma a achá-la. Solícito, muito solícito. Olhamos ao redor e a questão é que víamos vários carros da ONU. E agora? Mas em seguida vimos uma Toyota 4Runner Branca dando a volta com um motorista de uniforme igual ao nosso. Como só existem 3 pessoas com esse mesmo uniforme em todo o país e nós éramos as outras 2, a terceira só poderia ser o Major que nunca tínhamos visto. Dito e feito. Nosso sempre solicito auxiliar nos acompanhou até o carro, ajudando a acomodar as malas. Mais uma gorjetinha, a segunda em menos de 15 minutos. Tudo provisório, o ambiente meio complexo demais para ser lido imediatamente, uma ajuda oportuna pode garimpar uns poucos dólares. Se um dólar não seria muito por ai, por essas bandas parece bem mais, aliás, pra ser preciso, é exatamente 70 vezes mais. E assim começa nossa vida por aqui, com uma centena de dólares Liberianos a menos. God bless us all.