Vocês lembram daquela piadinha antiga onde o sujeito diz que o problema dele nunca é dinheiro, mas sim a “liga” para prendê-lo?! Pois é, depois de velho foi que eu fui entender. Primeiro, porque talvez nunca tenha tido dinheiro suficiente para precisar de uma liga ou elástico. Ou porque nossos economistas tenham sido mais rápidos no controle dos zeros na chamada “economia real”. Ou simplesmente porque num sistema bancário de referência mundial como o brasileiro, para a maioria das pessoas, liga é coisa do passado, como são as fitas k-7, os disquetes, os walk-mans e por aí vai... Esse tipo de coisa a própria modernidade se encarrega de sepultar para sempre.
Pois bem, mais de 70% da economia do pais é dolarizada. Na capital, a maioria das atividades corriqueiras, comércio de melhor nível, serviços em geral, supermercados, entre outras coisas, são precificados em dólar americano (USD). Só que todos os trocos menores do que 1 USD são honrados na moeda local, o tal dólar liberiano. Não há moedas. Também pudera, a equivalência entre os dois gira em torno de 70 dólares liberianos por cada dólar americano. Isto é, enquanto no Brasil pagamos 1,7 ou 1,8 por um dólar, aqui temos que desembolsar cerca de 70 dólares liberianos pelo mesmo valor. Um exemplo para o Brasil, que faz campanha para tentar desencalhar as moedas, milhões de reais que dormem em porquinhos, vidrinhos e vasinhos por aí, na casa do povo. Se não conseguirmos desvalorizar nosso poderoso Real, poderíamos criar o “Irreal”, ou mesmo homenagear nossa ex-metrópole reinaugurando o Escudo. Cédulas que se destinariam aos famosos "quebradinhos", aos trocos, às compras de banana a varejo ou de chicletes nas portas das baladas.
Pois bem, aqui nesse fim de mundo, próximo da fronteira, os pequeninos comércios estabelecem seus preços em Dólar Liberiano. São lojinhas de no máximo duas portas, cujas compras são do tipo: um pacote de açúcar, um caderno, uma caixa de fósforo e dois papéis higiênicos. O pãozinho do dia a dia, referência mais consagrada que o IGP-M, vale 20 dólares liberianos. Hoje paguei 140 por um bloquinho de anotação e una coca gelada que vale em torno de 70.
Para ter acesso a todas essas iguarias, recorri à figura do ambulante trocador de dinheiro, que fica nas calçadas, parecendo uma banquinha de “jogo do bicho”. Quer dizer, caso existisse jogo de asar no Brasil... Disse ao senhor que queria trocar 100 dólares americanos. Ele me retrucou: “mas o senhor quer trocar o dinheiro todo?” Respondi que sim, guardo em casa, e não precisaria ficar voltando lá toda hora. Pois que ele baixou a cabeça e se danou a contar nota. Soma final: 7.300,00 dólares liberianos, em notas de 100, 50 e 20. Uma beleza. Notem que o país não produz papel moeda e as cédulas, principalmente as menores, estão em situação deplorável. Mas o que me acalmou mesmo quando eu vi aquela montanha de dinheiro foi que ele puxou um saquinho repleto de soluções. Distribuiu as liguinhas nos montinhos de dinheiro e saí realizado, me sentindo muito rico. Por isso que eu digo, meu problema sempre foi a liga, só nunca tinha morado aqui antes. Maldita hora que saíram os zeros das nossas moedas, hoje seríamos ainda mais liberianos: barulhentos, loucos por futebol, só que cheios da grana.
Que experiência incrível, Álvaro! Parabéns!
ResponderExcluir