quarta-feira, 25 de abril de 2012

Meu problema sempre foi a "liga"

Vocês lembram daquela piadinha antiga onde o sujeito diz que o problema dele nunca é dinheiro, mas sim a “liga” para prendê-lo?! Pois é, depois de velho foi que eu fui entender. Primeiro, porque talvez nunca tenha tido dinheiro suficiente para precisar de uma liga ou elástico. Ou porque nossos economistas tenham sido mais rápidos no controle dos zeros na chamada “economia real”. Ou simplesmente porque num sistema bancário de referência mundial como o brasileiro, para a maioria das pessoas, liga é coisa do passado, como são as fitas k-7, os disquetes, os walk-mans e por aí vai...  Esse tipo de coisa a própria modernidade se encarrega de sepultar para sempre.
Pois bem, mais de 70% da economia do pais é dolarizada. Na capital, a maioria das atividades corriqueiras, comércio de melhor nível, serviços em geral, supermercados, entre outras coisas, são precificados em dólar americano (USD). Só que todos os trocos menores do que 1 USD são honrados na moeda local, o tal dólar liberiano. Não há moedas. Também pudera, a equivalência entre os dois gira em torno de 70 dólares liberianos por cada dólar americano. Isto é, enquanto no Brasil pagamos 1,7 ou 1,8 por um dólar, aqui temos que desembolsar cerca de 70 dólares liberianos pelo mesmo valor. Um exemplo para o Brasil, que faz campanha para tentar desencalhar as moedas, milhões de reais que dormem em porquinhos, vidrinhos e vasinhos por aí,  na casa do povo. Se não conseguirmos desvalorizar nosso poderoso Real, poderíamos criar o “Irreal”, ou mesmo homenagear nossa ex-metrópole reinaugurando o Escudo. Cédulas que se destinariam aos famosos "quebradinhos", aos trocos, às compras de banana a varejo ou de chicletes nas portas das baladas.
Pois bem, aqui nesse fim de mundo, próximo da fronteira, os pequeninos comércios estabelecem seus preços em Dólar Liberiano. São lojinhas de no máximo duas portas, cujas compras são do tipo: um pacote de açúcar, um caderno, uma caixa de fósforo e dois papéis higiênicos. O pãozinho do dia a dia, referência mais consagrada que o IGP-M, vale 20 dólares liberianos. Hoje paguei 140 por um bloquinho de anotação e una coca gelada que vale em torno de 70.
Para ter acesso a todas essas iguarias, recorri à figura do ambulante trocador de dinheiro, que fica nas calçadas, parecendo uma banquinha de “jogo do bicho”. Quer dizer, caso existisse jogo de asar no Brasil... Disse ao senhor que queria trocar 100 dólares americanos. Ele me retrucou: “mas o senhor quer trocar o dinheiro todo?” Respondi que sim, guardo em casa, e não precisaria ficar voltando lá toda hora. Pois que ele baixou a cabeça e se danou a contar nota. Soma final: 7.300,00 dólares liberianos, em notas de 100, 50 e 20. Uma beleza. Notem que o país não produz papel moeda e as cédulas, principalmente as menores, estão em situação deplorável. Mas o que me acalmou mesmo quando eu vi aquela montanha de dinheiro foi que ele puxou um saquinho repleto de soluções. Distribuiu as liguinhas nos montinhos de dinheiro e saí realizado, me sentindo muito rico. Por isso que eu digo, meu problema sempre foi a liga, só nunca tinha morado aqui antes. Maldita hora que saíram os zeros das nossas moedas, hoje seríamos ainda mais liberianos: barulhentos, loucos por futebol, só que cheios da grana.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

O idioma nas ruas e o papel do "language assistant"

O idioma oficial da Libéria é o inglês. Entretanto, na prática, como em outros países, existem outras línguas e dialetos em uso. Os limites dessas línguas e dialetos locais são, normalmente, os vigentes entre as diversas tribos que compõem os chamados “Liberianos Indígenas”. O inglês era falado pelos “Liberianos Americanos”. No início, representavam 5% da população, gozavam do amplo apoio estadunidense e monopolizaram a administração do país por mais de 100 anos, o suficiente para expandir traços da cultura assimilada para o restante do país.
Procuro não esquecer as aulas que tive, mesmo em priscas eras. Lembrei agorinha das aulas de história antiga do saudoso Prof. Amora (que tirando um “a” fica Amor, rsrs), na sétima série do CMF. Na Roma antiga, uma coisa era o Latim falado pelos mais cultos, outra coisa era o latim corrente, utilizado nas ruas. Pois bem, aqui sinto muito claramente essa diferença. No Brasil, além de não sofrermos a pressão interna de outros idiomas, o nível geral de alfabetização da população é certamente bem maior do que aqui, o que não nos permite perceber essas fronteiras.
Bem, aqui tive uma aula de história com um liberiano formado em sociologia. O sotaque marcava um pouco, mas era completamente inteligível. Outra vez fui a uma operadora de celular, dificílimo de entender a moça, que ainda tinha uns dentinhos pra fora e falava com a boca entre aberta (depois vim saber que a abertura dos dentes poderia ser a indicação de nobreza em determinadas tribos)... A coisa caminha realmente para uma corruptela do inglês, por isso, “God” vira “Gó”; “Because”, vira “Bicó” e aí por diante... Aos pouquinhos a gente vai acostumando o ouvido... Na capital e no comércio, a coisa ainda vai, mas quando estamos em patrulhas por esse interior de meu Deus, aí o bicho pega...

Para mitigar esses problemas, um grande aliado é certamente o chamado Language Assistant, ou Assistente Linguístico. Ele é um indivíduo local, capaz de se comunicar nos idiomas regionais e no nosso. Alem disso cumpre o papel de assessor cultural, tentando traduzir não apenas as falas, mas as idiossincrasias. Ao chegarmos no vilarejo é o primeiro a saltar do veículo e começar a perguntar pelo Town Chef  (Chefe da Cidade). Extrapola, portanto, o papel de um tradutor.

Bem, o fato é que o principal papel dos Military Observers (Milobs ou ainda UNMOs – United Nations Military Observers) é o de observar e reportar. Para tal, entender o que as pessoas falam e circunstanciar dentro das realidades locais é o primeiro passo. Se se vai aguçar o ouvido, perguntar várias vezes ou lançar mão de intérpretes ou Language Assistants, isso é um segundo problema... E, de onde eu venho, os primeiros problemas têm sempre prioridade sobre os segundos... A missão tem tem que continuar ;-)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Uma experiência de super-herói

Quando a aeronave pousou em Poe River Middle Town faltava muito pouco para as 11 horas da manhã. De onde estava, a direita, não percebi muita coisa, a não ser algumas casas enquanto o helicóptero se aproximava lento. Da escotilha aberta via um resto de grama e em seguida o adensamento da mata. A porta era do lado oposto e meu colega foi o primeiro a descer. Recém chegado, uma das primeiras missões. Não poderia imaginar o que aconteceria. Não acreditei. Estava todo o vilarejo, mulheres, crianças, jovens e adultos, contidos no limite do campo, talvez pelo medo ou pelo respeito àquela enorme geringonça alada. Quando nos viram, explodiam de emoção, mulheres gritavam, crianças corriam... surreal.
Logo se aproximaram os chefes do povoado de pouco mais de 1.000 pessoas, que na África invariavelmente são os homens, os mais velhos. Dissemos que queríamos conversar e fomos conduzidos para uma espécie de cajueiro gigante, de sombra farta... Surgiam cadeiras, uma mesa e até mesmo uma toalha para compor o ambiente do meeting. Nos convidaram para sentar, o chefe da vila ao centro. O mais letrado assume a palavra, se apresenta, apresenta as autoridades locais e externa a imensa alegria de receber-nos.
  Com o compromisso de responderem tão somente a verdade, percorremos nosso extenso questionário e pontuávamos as respostas para o relatório. Isso é a vida do Observador: olhos e ouvidos da ONU, observar e relatar. Para o vilarejo, o principal problema é o acesso. A estrada mais próxima fica a duas horas de caminhada. Estão construindo uma clínica e o cimento vem todo sobre a cabeça. “Somos muito fortes”, repetiam. Malária, diarreia e afecções diversas do trato respiratório são queixas certas (não esqueçamos que a África ainda luta contra a tuberculose). Perguntei se havia minas de qualquer natureza na região, responderam que não, que há mais de 10 anos não mexem com isso, que a esperança de riqueza tirava as crianças da sala de aula. A vila vive da agricultura de subsistência, do arroz, da caça, da pimenta... E a escola era outro problema: não tinham construção apropriada. Os cerca de 300 alunos disputavam lugar com os animais que à noite se abrigavam naquele telheiro sem paredes. E os “quadros-negros estão muito ruins”, me dizia o chefe. Antes de partirmos, ainda nos deram água de coco para agradecer-nos a visita.


Anotamos tudo, fotografamos e reportamos. É o nosso trabalho... Novato, só fui perceber lá pelo final da patrulha que helicóptero, escolta armada, população em polvorosa, tudo isso, no final das contas, era para mim e para meu colega, os ilustres observadores de paz da ONU... Só gostaria que voltasse para esse povo, quem sabe um dia, uma mínima parte do valor que aparentamos ter...

sábado, 7 de abril de 2012

Harper, destino final: a chegada


Com Silva Mendes e Amin, que tambem foi pra Zwedro
Dormi bem minha primeira noite. Sem roupa de cama, sem travesseiro, sem rede de mosquitos... Mas tinha o essencial: um cansaço muito grande, um colchão e um ventilador. Aconteceu que o cara lá no aeroporto não deixou embarcarmos tudo e prometeu mandar o resto no dia seguinte. Disse que tínhamos que escolher apenas o essencial. Nós tínhamos 5 volumes cada. 3 bagagens em si, mais um ventilador e um colchão. As bagagens não estavam preparadas contemplando uma situação dessas... Portanto, minhas primeiras duas escolhas foram fáceis: o ventilador e o colchão. Por último, apontei para a mala que eu lembrava ter colocado o material de higiene logo cedo.

Finalizada a questão da bagagem, aí vamos nós rumo ao bravo quadrimotor canadense: Dash-7. Aliás, a empresa era uma contratada da ONU; portanto, no meio do além, surgiram na porta do quadrimotor duas aeromoças de calças pretas e camisas bem brancas. Lógico que não havia serviço de bordo, mas ainda assim elas seguiam aqueles protocolos automatizados de apertar os cintos e apontar para a saída de emergência. O mais inusitado era, logo após tocarmos o solo em pistas de terra, elas despejarem o famoso “Sejam bem-vindos à Zwedro”, Greenvile ou Harper. Como assim, tão achando que tão na ponte aérea? Cada pernada não durava mais do que 45 minutos, seguidos de outros 30 a 45 no solo. E todos tinham que descer... Nota: realmente o Brasil está transformando seus aeroportos em Shoppings... Precisam ver a “estrutura aqui”.
Em Zwedro deixei meu bravo companheiro de turma, com quem dividi o tempo de preparação ano passado e com quem vinha sofrendo as aflições das esperas e das adaptações. Além disso, perdi a oportunidade de fazer aquele comentário em paralelo jocoso em português, falar sem esforço... A partir de agora, inglês todo tempo, no máximo um francês...
Aeronave na final em regra de voo visual, “Seja Bem-Vindo à Harper”! Lá estava meu Team Site Leader de Bangladesh me esperando. De posse do “essencial” que tinha escolhido, rumamos às 14h30min para a Companhia de Engenharia Paquistanesa para tentarmos almoçar. A cultura militar é igual em todo mundo mesmo... Lá estava um “cabo véio” da cozinha, que me disse que naquela hora só tinha feijão e arroz, mas que, se eu quisesse, ele poderia fritar um ovo. Não pensei duas vezes, até porque estava me clicando para o “essencial”. ;-)

O escritório fica a 3 minutos da casa. Fomos até lá para conhecer o restante do time. Em seguida, de volta à casa, me apresentaram o quarto. Pequeno, mas bom comparado com outros lugares por aí, inclusive com as acomodacoes do Silva Mendes. Não há água corrente, mas a energia bomba 24 horas por dia... Um outro verdadeiro luxo por aqui... No mais, espaço para a cama, uma escrivaninha pequenina e uma espécie de móvel que lembra um guarda-roupa sem porta. Nada mal. Só fica na parte de baixo da casa, uma espécie de subsolo, porque esta é a lei: os recém-chegados ficam com as piores condições. As pequenas “melhorias” acontecem paulatinamente, na medida em que formos ficando antigos no lugar.

Induction Training

Passamos umas 5 semanas na capital, o que não é normal, mas precisávamos passar pelo tal Induction Training, que é um treinamento obrigatório para quem chega na área da missão, antes de ser “deploiado” (deploy em inglês é o termo militar para ser enviado para seu posto em campanha, permitam-me o neologismo, mas é normal por aqui, rsrs...).
O treinamento transcorreu durante uma semana e pouco, com diversos temas e entidades... Se tiver tempo faço alguns comentários específicos. Mas os temas foram desde a organização da missão, na sua parte militar e civil, à condutas, procedimentos administrativos, temas sobre exploração e abuso sexual, igualdade de gêneros, Cruz Vermelha Internacional e por aí vai...
Deputy Force Comander - Gen da Nigeria
No final da semana, descobri que estava indo para Harper, na fronteira com a Costa do Marfim e o meu compatriota e amigo para Zwedro, um pouco mais para nordeste de Harper. Melhor ainda saber que há dois anos atrás meu afilhado de casamento, Clayton Pontes, esteve por aqui (estou escrevendo esse post depois, rsrs.. Aliás, Pontes, o “MovCom Guy” do campo de pouso daqui me pediu que lhe mandasse um abraço, e realmente lembrava o seu nome. É bom ver a consideração das pessoas, prova principalmente do seu bom trabalho e da maneira bacana como certamente tratava as pessoas). Considerando as opções que tínhamos, esses destinos foram muito bons...

No final do curso, como é normal: fotos, certificados, etc... Mais importante, liberdade de manobra para sermos postados em algum lugar e começarmos o trabalho que nos propusemos a fazer desde o início... Observar e reportar.