Queria pensar um pouco com vocês sobre 'corrupção'. Parece que a grande noticia por aí agora é o julgamento no Supremo do tal mensalão. Tenho pouquíssima informação porque não tenho TV e mal consigo ver as manchetes nos sites nacionais. O Facebook muitas vezes não carrega as fotos, nem posso ver as charges jocosas que devem estar rolando. Me resta apenas os comentários dos meus amigos mais articulados... E ainda bem que os tenho. Mas o que admirei agora foi que o dicionário do computador aceitou o suposto neologismo “mensalão” como correto. Fiquei embasbacado. Como nos acostumamos com a corrupção e a integramos aos nossos dicionários, às nossas vidas...
Estou num dos países que dizem ser um dos mais corruptos do mundo. Aqui tem um tal de “small small” (smóu smóu) que é uma maneira peculiar de se dizer “um pouco”, “pequena quantidade”. Gramaticalmente imprópria, a expressão é usada pra tudo. “Quer mais café? Uhmm... Small Small”. “Dá pra chegar mais pra frente, Small Small?”. Nessa de interagir, não tem como a gente deixar de incorporar a expressão ao dia a dia, nem que seja em tom de brincadeira. O problema é que eles também usam essa expressão para se referir a um pouco de dinheiro, um incentivo aqui, uma ajuda acolá. No com português das ruas poderíamos também traduzir a expressão como algo para o “leitinho das crianças”. É o famoso: “pois é chefe, a situação do senhor tá complicada, que nem lá em casa... Quem sabe com uma ajuda pro leitinho das crianças a gente num consegue ver se simplifica as coisas pro senhor?”. Só que aqui não precisa de muito jeitinho pra falar.
Passamos o dia chamando o eletricista que estava sempre ocupado. Pontualmente no final do expediente ele chega pra você e diz: “chefe, eu tô aqui, mas pra não deixar os senhores no escuro até amanhã, preciso de um ‘Small Small’”. Ninguém usa capacete, mas o policial para a moto do garoto e diz: o documento está com problema. O motociclista já sabe, nem raciocina, “small small” e assim vai dividindo os trocados que ganha nas corridas de moto-taxi. Aliás, aqui todo motociclista também é moto-taxista e moto parece a van do subúrbio carioca: capacidade de passageiros sempre excedida e param em qualquer lugar. Em Harper, na páscoa, vi um bispo liberiano pregar contra a corrupção, que não era possível viajar 16 horas pra Monróvia em estrada de terra, distribuindo dinheiro em cada posto de checagem. Para ele, isso está atrapalhando o país a progredir. Gostei demais do jovem bispo... responsável, corajoso. Falando em autoridade, se o “achacamento” dos moto-taxistas liberianos fosse ao Supremo, eu teria um medo danado que algum ministro entendesse de uma maneira contrária a do religioso e ainda gastasse uma 200 páginas pra fundamentar: a contribuição voluntária do cidadão fazia parte do esforço conjunto da sociedade para suplantar os óbices logísticos que fazem os policiais não possuírem algemas, terem uma única viatura em todo o estado e em alguns lugares sequer disporem de uniforme pra usar.
Coitada da polícia, sempre sujeita a esses exemplos... Mas aqui esses exemplos saltam por toda parte. Uma brasileira que mora em Monróvia me disse que teve que ir ao serviço público liberiano e o funcionário pediu um “small small” pra tirar cópia do documento que fazia parte de seu processo. Para lideranças locais participarem de reuniões de coordenação com as diversas NGOs que ajudam o pais, as tais autoridades esperam receber um tal “per diem”. Caso contrário, alguns reclamam seriamente, outros sequer aparecem. Pois é, o pior é que olho pra esses exemplos e lembro dos jornais daí – não quero parecer injusto ou alarmista – mas se Caetano uma vez cantou que o Haiti é aí, fiquei com medo da Libéria também mudar de continente, pelo menos nas letras do famoso setentão...
Ah, mas também ouvi boatos de uma tal Olimpíadas... Aí pensei: Rússia, Canadá, China e Estados Unidos são os únicos países maiores que o Brasil em extensão. Se fosse competição, uns porque realmente não se admite, outros porque nunca se saberá ao certo, a medalha na modalidade corrupção, pelo menos na categoria “maior país corrupto do mundo”, seria realmente do Brasil. A Libéria, a pesar do esforço, de também amar o futebol e de dizer lutar contra a corrupção – qualquer semelhança não sei se é mera coincidência ou não – precisa mesmo se conformar com o resultado atual e continuar treinando, esperando para a próxima Olimpíada. A má notícia para eles é que estaremos jogando em casa. Se eles continuarem assim, só nessa de pouquinho pouquinho, não me resta dúvida: “nunca serão!” A Libéria que me desculpe, não quero dar uma de Galvão, mas pro Rio 2016, eu já tenho meu favorito: é o país do mensalão!





