quarta-feira, 11 de julho de 2012

Gonzagão faz 100 anos e eu continuo no Banho de Caneca


Lembram do chavão: “olhos e ouvidos da ONU”? Pois bem, pra gente cumprir esse objetivo, seguimos por aí, às vezes voando, mas na maior parte das vezes dirigindo nossas 4x4 por essas estradas e trilhas, atualmente enlameadas... Só que os japoneses são de lascar: querem que o troço funcione, que não quebre, aí se sentem desobrigados de fornecerem certas “sofisticações”. Nossas Nissan Patrol são novas, mas só têm rádio e fita K-7, acreditam?? Algum de vocês ainda tem alguma fita pra me emprestar?? Mas tem que enviar junto uma caneta 'Bic' pra rebobinar sem gastar a pilha do walk-man (é o novo!)... Desculpem os mais novos, peçam aos mais velhos para explicar... Não pude resistir a um momento nostálgico. Bem, mas hoje vivemos tempos chineses... E eles inventaram umas maravilhas a preços módicos que se conectam ao isqueiro do veículo e transmitem por rádio-frequência nossos MP3 armazenados em pendrives e cartões de memória para o som do carro usando uma estação de rádio qualquer J (mais novos, agora é a vez de vocês! Vão a forra e dêem um baile nos velhacos!).
Pois bem, tinha dirigido um dos carros no dia anterior e hoje resolvemos ir todos juntos para o almoço. Fui o último a entrar e não acreditei no que encontrei... Um russo ao volante, um dinamarquês de copiloto, eu e um cara de Bangladesh atrás... Só que do som vinha o velho Gonzagão, cheio de esperança dizendo: “já faz três noites que pro norte relampeia... e a Asa Branca ouvindo o ronco do trovão, já bateu asas e voltou pro meu sertão... ai ai eu vou me embora cuidar da plantação...". Nem preciso dizer que essa combinação pareceu surreal.
Resisto um pouco em comparar isto aqui com o sertão. E posso dizer bem dele, porque conheço; mais do que isso, porque vivi o sertão, graças a estratégia bem bolada da minha mãe. Por muitos anos ela nunca nos deu opção e todas as férias nos despachava para a casa dos avós, no interior. Bravo!, porque isso me garantiu, além de amigos queridos, uma referência preciosa... Além do mais, como me divertia com meus amigos Vitor e Lígia uma vez: na nossa geração, todos temos  “um interior”. Aliás, pra mim, a pergunta “qual o seu interior?“ faz todo o sentido... Bem, depois penso mais sobre isso, mas uma coisa é fato: meu banho de caneca aqui é uma referência muito clara a esse “meu interior”.
Pra quem não sabe, não tem água corrente por aqui, o que gera uma série de deduzidas... Barba na caneca, o que diminui a vida útil da lâmina de barbear, que também não tem por aqui. Nada de banho quente, embora minha avó fervesse uma chaleira d’água pra juntar com o balde da cacimba (muito empenho, logo não faço, lógico). Descarga no balde – apresentei ao norueguês o banheiro que tinha um balde do lado do aparelho sanitário e ele me perguntou: “como se dá descarga?” – pensei, pobre citadino... Mas, de tudo isso, o mais romântico é certamente o tal banho de caneca que, graças à minha referência, não é lá um bicho de outro mundo.
 A primeira vez que cheguei no banheiro, fiquei rindo sozinho encarando aquela montoeira de baldes de várias cores com umas canequinhas de tamanhos e formas variadas ao redor. Depois de umas canecadas, tinha um resto d’água no balde que entornei na cabeça, como se estivesse debaixo de uma bica generosa, o que me deu uma saudade gostosa da infância. Só que hoje tenho sabonete líquido – que também não vende por aqui – e descobri uma canequinha providencial: é uma espécie de chaleira de plástico, meio grandinha, que tem um bico. Ora, com um pouco de treinamento, você consegue passá-la de uma mão para a outra, trocando também a mão do enxágue, mantendo mais ou menos constante o fluxo d’água. Um luxo. Ora, ao invés dos grandes chuveiros, a Accord Hotels deveria treinar as pessoas a tomar banho... Em tempos de Rio+20 e consciência ambiental, seria uma economia e tanto de recursos hídricos!
                   Nesse centenário de Luiz Gonzaga me sinto ainda mais perto dele. Nascido no Ceará, entrou nas filas do Exército em Fortaleza e depois foi transferido e morou em Juiz de Fora, igualzinho a mim. Nessa pobreza sem par, uma estação chuvosa de precipitações diárias é uma verdadeira dádiva e escutar o velho Lula falando da Asa Branca que volta pro sertão na esperança de plantar me emociona... Justamente porque me parece ser a esperança a única saída possível. Aliás, me sinto um felizardo, porque de onde eu vim, desse “meu interior”, comecei foi na bacia, quando eu era pequeno (pequeno o suficiente pra fazer dela uma Jacuzzi). Lembro direitinho do barulho do fundo metálico no chão de cimento batido, dando uma leve agonia... Ora, comecei na bacia, passei pela cuia, caneco e hoje estou na chaleirinha de plástico... É uma melhora considerável. Afinal de contas, quando se tem esperança, em tempos de privação, pra quem não tem nada, metade é o dobro! ;-)

terça-feira, 3 de julho de 2012

Wolo, um leitor assíduo.

Mosquiteiro: segundo Fábio, Instagram Liberiano
A ONU nos dá direito a um reembolso para contratarmos segurança e para o combustível dos geradores de eletricidade. Felizmente moramos tão perto do Quartel General aqui de Harper que conseguimos filar a eletricidade do escritório, nos sobra apenas contratar nossa pópria segurança. Na prática, são 4 funcionários que se revezam dia e noite, mais “Mama” Alice que cuida da nossa roupa. E Wolo é o chefe de todos eles.
Wolo é um homem de pouco mais de  40 anos, estrábico, esguio e a quem faltam a maioria dos dentes. Por essa razão, talvez , fala o mais puro liberian english, um mistério ainda parcialmente decifrado por todos nós. Por qualquer motivo, dificilmente nobre, normalmente ligado a tragédias familiares, fala um pouco de francês. Ora, a Costa do Marfim, cuja situação é mais instável do que a nossa, fica a poucos quilômetros daqui e há refugiados de ambos os lados...
Confio muito pouco nos dados oficiais deste país, mas segundo consta a Libéria é majoritariamente cristã, coisa de 80%. Tudo bem, se Salvador tem um pé na África, aqui, obviamente, os dois já nasceram no continente. Só que o que se chama aqui de práticas e leis “tradicionais” por algum motivo são mais difusas, mais difíceis de se ver do que na Bahia, acreditam? Bem, mas o fato é que quando não está fazendo alguma coisa na casa, Wolo está sempre por aí, em algum parapeito, com a Bíblia no colo. Ora, sempre achei isso legal. Em meio a escombros e despojos de guerra, qualquer religião, mais do que qualquer promessa metafísica, fala de conciliação, perdão, esperança. E seja lá qual seja, me parece ter o poder de amainar o presente e quem sabe fortalecer a mentalidade das pessoas e ainda, em alguns casos, inspira uma preocupação social e inclusiva. Muitas vezes a privação nos momentos de crise nos faz egocêntricos, intolerantes, e nos obriga a permanecer na base da pirâmide de Maslow, lutando tão e simplesmente pela tal autopreservação. Ali, os valores elaborados do que chamamos de civilização passam longe... É preciso começar tudo de novo...  
Há quase 10 anos do fim da guerra, numa belo fim de tarde de sol ameno, em plena estação chuvosa, cheguei em casa e lá estava Wolo, lendo sobre o parapeito da escada que dá para o segundo piso. Me sentia feliz, inspirado, resolvi indagá-lo: “o que você tá lendo de bom aí Wolo?”. Ele me respondeu: “o capítulo 16 do livro de Jó”. Eis que eu mesmo assumi a leitura e a fiz em voz alta. Era um relato daquele Deus impiedoso do antigo testamento. Jó sofria horrores, no meio dos diálogos entre Deus e o Inimigo. Em minha soberba desenvolvida e ilustrada, tinha em mente que qualquer dia pregaria àquele homem algum entendimento mais sofisticado. Mas sobre aquele relato, subitamente não me veio nada. Tentei ganhar um tempo, falando o óbvio, mas ele não me deixou pestanejar e tomou a iniciativa, perguntando-me o que era aquilo. Sem esperar minha resposta começou a me pregar com vigor e eloquência. Os olhos se arregalaram enquanto o rosto tremia levemente. Muitos veriam ali os sinais da Graça e do Espírito. Dizia que Jó sofrera às expensas do Diabo toda sorte de privação e de maus tratos, mas que Deus o dissera que sobre a Vida, que é o Dom Maior, nada poderia fazer.
A partir daí, conversamos sobre esse mundo ser o do Diabo. Lembrei-o das provações de Cristo no deserto e seus diálogos com o “dito cujo”. Ele me disse, “exatamente”! Me falou alguma coisa sobre o juízo final como consequência da nossa vida e das nossas escolhas. E ainda me disse que fazer boas escolhas hoje, praticar a 'Palavra' era o verdadeiro desafio. Sorri. A mais pura verdade, universal, e o desafio era igual, tanto para mim quanto para aquele homem simples. Tentei apenas dizer que todos esses embates acontecem mesmo é dentro da gente. Que cada um de nós carrega o céu e também o inferno; que a cruz significa exatamente que aquilo que está em cima é igual ao que está embaixo ou ao lado, e que vivemos perigosamente nessa confluência.
                   Deixei-o com um incentivo simples, “é isso aí Wolo, continue lendo”. Mas o que queria mesmo era ficar sozinho para pensar sobre tudo aquilo. Quanto mais estudo e conheço, mais me concentro em buscar a humildade que me permita seguir adiante, conservando-me sensível ao mundo, às pessoas e às coisas que me cercam. Mas o fato é que erramos, cedemos às seduções das serpentes, às provações em nosso próprio deserto pessoal; e como Paulo, incorremos no mal que não queremos. Por isso todo esforço é para me conservar humilde, pois a Verdade não tem cara de gente, não tem jeito de doutor, não usa barba branca e nem óculos de grife. A Verdade pode nem sequer ver direito, ser pobre e não ter dente... Como nos disse Saramago, a cegueira é uma condição humana, uma condição contra a qual nos rebelamos. Vencedores e vencidos partilham o mesmo castelo e a luta, como a vida, parece não ter fim.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Várias formas de se dizer Bom Dia!!

Esse fim de semana estávamos Brasil (eu!), Dinamarca, Estados Unidos, Itália e Canadá conversando sobre esse negócio de cumprimentar pessoas e a dúvida, em certa altura, era se os homens franceses davam ou não beijinhos na bochecha quando se encontravam. Bem, disse que tinha estado lá recentemente e que realmente achava que não, maaassss... os argentinos... Por favor, nada contra nossos hermosos vizinhos, todos sabemos que essa tal rixa é só folclore, mas que os homens se beijam, eles se beijam... Assim como a gente, quando encontramos algumas "amigas" no bar, na porta da balada, num aniversário etc. Enfim, beijar a bochecha de uma cara que não é seu pai pode parecer meio estranho pra nós. Mas por favor, respeitemos a cultura do vizinho :-P
Bem, mas depois disso fiquei pensando... A maneira de nos cumprimentar é sim um de nossos traços culturais mais específicos e importantes, até porque usamos diariamente, até mesmo várias vezes durante o dia. Por exemplo, estive na França outro dia (ninguém é de ferro, tive que descansar um pouco...), onde ninguém se aproxima de você sem pedir licença ou desejar de cara um caloroso bom dia: Bonjour! No Brasil somos tão econômicos com essas coisas... Aliás, na França, a contato com o outro nunca está completo se não dissermos obrigado, tchau e realmente desejarmos um bom dia: Merci, Au revoir, bonne journée... Este último corresponde ao desejo de uma “boa jornada”, um "bom dia de trabalho", numa tradução bem forçada, mas enfim: é o desejo de que todo o resto do dia lhe seja realmente bom. À noitinha, há ainda o bonne soirée, que serve como “noitada”, mas que não tem nada a ver com festas e excessos. Italianos, aliás, têm os mesmos termos: Buona Giornata ou Buona Serata. E nós, como economizamos hein...
Por outro lado, nós temos essa mania de tocar nas pessoas por tudo e os homens a cultura do aperto de mão. Outro dia, referindo-se a um outro companheiro, um colega falou no escritório: “eu não sei pra quê esse negócio de apertar as mãos todos os dias... Nós trabalhamos juntos, nos vemos todos os dias, precisa ficar passando micróbio um para o outro diariamente?”. Na dúvida, particularmente, eu nunca tomo iniciativa, dou um bom dia geral e pronto...
Ao mesmo tempo, cumprimentar dentro do código de valores do outro pode ser um sinal de respeito e consideração. Por isso, costumo cumprimentar meus amigos muçulmanos da maneira deles, ou seja, em substituição ao Bom Dia ou ao Boa Tarde: Assalamu alaikum cuja resposta é Alaikum assalaam. É um significado bonito que eu acho merece ser replicado: “que a Paz de Deus esteja contigo”, e a resposta, “e sobre você a Paz Dele”. São termos árabes, mas que servem aos muçulmanos de todos os idiomas, até porque todos eles são estimulados a estudar árabe para ler o Corão na versão original.
              Na Libéria, evidentemente, haveria de ter suas peculiaridades... Portanto, para começar, eles adoram um Hello. Esse é o cumprimento básico e universal: “Oi”! Simples assim, mas de preferência bem simpático, o que normalmente motiva recebemos de volta um Hi ou Hello muito caloroso. Podemos ainda tentar um Ya Hello, que é um “Hello pra todos vocês". Outro dia tentei esse cumprimento simples quando fui bater papo com umas 200 crianças de uma escola e recebi um caloroso e uníssono HI!!! Umas belezinhas... O fato é que andamos por aí falando com as pessoas e é importante saber o código local. E depois do Hello, sempre que possível, vai vir um aperto de mão (eles gostam muito). Só que não é um aperto de mão comum. Depois do aperto de mão como conhecemos (fase normal, brasileira digamos), quando as mãos vão se separar, o dedo maior de ambos escorrega pela mão do outro até encontrar sua contraparte, é quando puxa-se a mão com força para produzir um estalo. Quanto maior o estalo, "melhor" o aperto de mão. Depois, pode-se ainda levar a mão até o meio do peito pra dizer que estamos sendo sinceros, o que funciona também para os muçulmanos de maneira geral. Portanto, quando me verem por aí nas fotos conversando com as pessoas, podem ter certeza que antes rolou um Hello caloroso e um aperto de mão que eu tenho tentando caprichar no estalado... Ah, e quanto ao meu colega dos micróbios? Bem, aprendemos que para quase tudo nessa vida se tem Mastercard... Para outras, muita paciência ou álcool gel ;-)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Meu problema sempre foi a "liga"

Vocês lembram daquela piadinha antiga onde o sujeito diz que o problema dele nunca é dinheiro, mas sim a “liga” para prendê-lo?! Pois é, depois de velho foi que eu fui entender. Primeiro, porque talvez nunca tenha tido dinheiro suficiente para precisar de uma liga ou elástico. Ou porque nossos economistas tenham sido mais rápidos no controle dos zeros na chamada “economia real”. Ou simplesmente porque num sistema bancário de referência mundial como o brasileiro, para a maioria das pessoas, liga é coisa do passado, como são as fitas k-7, os disquetes, os walk-mans e por aí vai...  Esse tipo de coisa a própria modernidade se encarrega de sepultar para sempre.
Pois bem, mais de 70% da economia do pais é dolarizada. Na capital, a maioria das atividades corriqueiras, comércio de melhor nível, serviços em geral, supermercados, entre outras coisas, são precificados em dólar americano (USD). Só que todos os trocos menores do que 1 USD são honrados na moeda local, o tal dólar liberiano. Não há moedas. Também pudera, a equivalência entre os dois gira em torno de 70 dólares liberianos por cada dólar americano. Isto é, enquanto no Brasil pagamos 1,7 ou 1,8 por um dólar, aqui temos que desembolsar cerca de 70 dólares liberianos pelo mesmo valor. Um exemplo para o Brasil, que faz campanha para tentar desencalhar as moedas, milhões de reais que dormem em porquinhos, vidrinhos e vasinhos por aí,  na casa do povo. Se não conseguirmos desvalorizar nosso poderoso Real, poderíamos criar o “Irreal”, ou mesmo homenagear nossa ex-metrópole reinaugurando o Escudo. Cédulas que se destinariam aos famosos "quebradinhos", aos trocos, às compras de banana a varejo ou de chicletes nas portas das baladas.
Pois bem, aqui nesse fim de mundo, próximo da fronteira, os pequeninos comércios estabelecem seus preços em Dólar Liberiano. São lojinhas de no máximo duas portas, cujas compras são do tipo: um pacote de açúcar, um caderno, uma caixa de fósforo e dois papéis higiênicos. O pãozinho do dia a dia, referência mais consagrada que o IGP-M, vale 20 dólares liberianos. Hoje paguei 140 por um bloquinho de anotação e una coca gelada que vale em torno de 70.
Para ter acesso a todas essas iguarias, recorri à figura do ambulante trocador de dinheiro, que fica nas calçadas, parecendo uma banquinha de “jogo do bicho”. Quer dizer, caso existisse jogo de asar no Brasil... Disse ao senhor que queria trocar 100 dólares americanos. Ele me retrucou: “mas o senhor quer trocar o dinheiro todo?” Respondi que sim, guardo em casa, e não precisaria ficar voltando lá toda hora. Pois que ele baixou a cabeça e se danou a contar nota. Soma final: 7.300,00 dólares liberianos, em notas de 100, 50 e 20. Uma beleza. Notem que o país não produz papel moeda e as cédulas, principalmente as menores, estão em situação deplorável. Mas o que me acalmou mesmo quando eu vi aquela montanha de dinheiro foi que ele puxou um saquinho repleto de soluções. Distribuiu as liguinhas nos montinhos de dinheiro e saí realizado, me sentindo muito rico. Por isso que eu digo, meu problema sempre foi a liga, só nunca tinha morado aqui antes. Maldita hora que saíram os zeros das nossas moedas, hoje seríamos ainda mais liberianos: barulhentos, loucos por futebol, só que cheios da grana.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

O idioma nas ruas e o papel do "language assistant"

O idioma oficial da Libéria é o inglês. Entretanto, na prática, como em outros países, existem outras línguas e dialetos em uso. Os limites dessas línguas e dialetos locais são, normalmente, os vigentes entre as diversas tribos que compõem os chamados “Liberianos Indígenas”. O inglês era falado pelos “Liberianos Americanos”. No início, representavam 5% da população, gozavam do amplo apoio estadunidense e monopolizaram a administração do país por mais de 100 anos, o suficiente para expandir traços da cultura assimilada para o restante do país.
Procuro não esquecer as aulas que tive, mesmo em priscas eras. Lembrei agorinha das aulas de história antiga do saudoso Prof. Amora (que tirando um “a” fica Amor, rsrs), na sétima série do CMF. Na Roma antiga, uma coisa era o Latim falado pelos mais cultos, outra coisa era o latim corrente, utilizado nas ruas. Pois bem, aqui sinto muito claramente essa diferença. No Brasil, além de não sofrermos a pressão interna de outros idiomas, o nível geral de alfabetização da população é certamente bem maior do que aqui, o que não nos permite perceber essas fronteiras.
Bem, aqui tive uma aula de história com um liberiano formado em sociologia. O sotaque marcava um pouco, mas era completamente inteligível. Outra vez fui a uma operadora de celular, dificílimo de entender a moça, que ainda tinha uns dentinhos pra fora e falava com a boca entre aberta (depois vim saber que a abertura dos dentes poderia ser a indicação de nobreza em determinadas tribos)... A coisa caminha realmente para uma corruptela do inglês, por isso, “God” vira “Gó”; “Because”, vira “Bicó” e aí por diante... Aos pouquinhos a gente vai acostumando o ouvido... Na capital e no comércio, a coisa ainda vai, mas quando estamos em patrulhas por esse interior de meu Deus, aí o bicho pega...

Para mitigar esses problemas, um grande aliado é certamente o chamado Language Assistant, ou Assistente Linguístico. Ele é um indivíduo local, capaz de se comunicar nos idiomas regionais e no nosso. Alem disso cumpre o papel de assessor cultural, tentando traduzir não apenas as falas, mas as idiossincrasias. Ao chegarmos no vilarejo é o primeiro a saltar do veículo e começar a perguntar pelo Town Chef  (Chefe da Cidade). Extrapola, portanto, o papel de um tradutor.

Bem, o fato é que o principal papel dos Military Observers (Milobs ou ainda UNMOs – United Nations Military Observers) é o de observar e reportar. Para tal, entender o que as pessoas falam e circunstanciar dentro das realidades locais é o primeiro passo. Se se vai aguçar o ouvido, perguntar várias vezes ou lançar mão de intérpretes ou Language Assistants, isso é um segundo problema... E, de onde eu venho, os primeiros problemas têm sempre prioridade sobre os segundos... A missão tem tem que continuar ;-)