Quando a aeronave pousou em Poe River Middle Town faltava muito pouco para as 11 horas da manhã. De onde estava, a direita, não percebi muita coisa, a não ser algumas casas enquanto o helicóptero se aproximava lento. Da escotilha aberta via um resto de grama e em seguida o adensamento da mata. A porta era do lado oposto e meu colega foi o primeiro a descer. Recém chegado, uma das primeiras missões. Não poderia imaginar o que aconteceria. Não acreditei. Estava todo o vilarejo, mulheres, crianças, jovens e adultos, contidos no limite do campo, talvez pelo medo ou pelo respeito àquela enorme geringonça alada. Quando nos viram, explodiam de emoção, mulheres gritavam, crianças corriam... surreal.Logo se aproximaram os chefes do povoado de pouco mais de 1.000 pessoas, que na África invariavelmente são os homens, os mais velhos. Dissemos que queríamos conversar e fomos conduzidos para uma espécie de cajueiro gigante, de sombra farta... Surgiam cadeiras, uma mesa e até mesmo uma toalha para compor o ambiente do meeting. Nos convidaram para sentar, o chefe da vila ao centro. O mais letrado assume a palavra, se apresenta, apresenta as autoridades locais e externa a imensa alegria de receber-nos.
Com o compromisso de responderem tão somente a verdade, percorremos nosso extenso questionário e pontuávamos as respostas para o relatório. Isso é a vida do Observador: olhos e ouvidos da ONU, observar e relatar. Para o vilarejo, o principal problema é o acesso. A estrada mais próxima fica a duas horas de caminhada. Estão construindo uma clínica e o cimento vem todo sobre a cabeça. “Somos muito fortes”, repetiam. Malária, diarreia e afecções diversas do trato respiratório são queixas certas (não esqueçamos que a África ainda luta contra a tuberculose). Perguntei se havia minas de qualquer natureza na região, responderam que não, que há mais de 10 anos não mexem com isso, que a esperança de riqueza tirava as crianças da sala de aula. A vila vive da agricultura de subsistência, do arroz, da caça, da pimenta... E a escola era outro problema: não tinham construção apropriada. Os cerca de 300 alunos disputavam lugar com os animais que à noite se abrigavam naquele telheiro sem paredes. E os “quadros-negros estão muito ruins”, me dizia o chefe. Antes de partirmos, ainda nos deram água de coco para agradecer-nos a visita.Anotamos tudo, fotografamos e reportamos. É o nosso trabalho... Novato, só fui perceber lá pelo final da patrulha que helicóptero, escolta armada, população em polvorosa, tudo isso, no final das contas, era para mim e para meu colega, os ilustres observadores de paz da ONU... Só gostaria que voltasse para esse povo, quem sabe um dia, uma mínima parte do valor que aparentamos ter...











